Rodrigo Jiménez/EFE
Rodrigo Jiménez/EFE

A última resistência de Simeone no Atlético de Madrid

Técnico argentino é o quarto do Campeonato Espanhol e luta contra o Liverpool na Liga dos Campeões

Rory Smith, The New York Times

19 de fevereiro de 2020 | 11h00

Diego Simeone adorava quando o sol brilhava sobre as arquibancadas do Estádio Vicente Calderón. Inicialmente como jogador do Atlético de Madrid, e depois como treinador do time, adorava os jogos em casa no estádio, no fim da tarde, quando, no campo, olhava para cima e via os assentos vermelhos e brancos cintilando na luz que ia aos poucos se apagando.

Era então que ele sentia a energia do estádio na lateral, quando o sol resplandecia e as bandeiras tremulavam e os cantos inundavam o campo. Simeone passou uma parte considerável da sua vida profissional naquele estádio, mas nunca foi contaminado por seu poder. "O Calderón consegue afetar as pessoas", dizia.

Quando aceitou assumir cargo no Atlético, poucos dias depois do Natal de 2011, estava consciente de que teria de controlar esse poder. Ele compreendia, sentia, o que os fãs do time queriam, que tipo de time se coadunaria com a história do Atlético, sua identidade, que estilo de jogo ganharia o apoio do Calderón.

Sua equipe, ele disse ao The Coaches’ Voice alguns anos mais tarde, teria de ser montada com base em uma forte defesa, um contra-ataque mortífero e um trabalho incessante. Simeone, conhecido como El Cholo, estava criando a sua própria filosofia: o Cholismo. "A única coisa que não é negociável é o esforço", dizia aos seus jogadores. Acima de tudo, dizia, o Atlético tinha de ser um espinho no lado dos superpoderosos.

Ele e o seu time cumpriram esta promessa. Praticamente em todos os aspectos, o período de Simeone como treinador do Atlético tem sido um sucesso espetacular, retumbante. Os troféus, é claro, são a prova mais óbvia disso. Com Simeone, o Atlético ergueu a Liga Europa e a Supercopa europeia duas vezes, em 2012 e em 2018. Ele ganhou a Copa do Rei, contra o Real Madrid, em 2013, e levou o clube para a final da Liga dos Campeões em 2014 e 2016.

O mais importante, evidentemente, é o fato de ele ter levado o Atlético para o título espanhol em 2014 – conquistado em território inimigo, na casa do Barcelona. Foi o primeiro campeonato do clube em quase vinte anos e a primeira vez em dez anos que um time que não o Barcelona ou o Real Madrid ganhara a taça.

É um avanço considerável para um time que até recentemente era conhecido pela capacidade de 'morrer na praia'. O Atlético há muito é conhecido, pelos torcedores e pelos seus rivais, como El Pupas: o Azarado. Ultimamente, o apelido não tem sido ouvido.

Há outros parâmetros, além dos troféus, das realizações de Simeone. A sua longevidade, para começar: ele é, consideravelmente, o treinador mais longevo do que o de qualquer outro clube europeu, e em um clube que até a sua chegada, era alérgico à estabilidade. Antes de Simeone, o Atlético teve 12 treinadores em dez anos.

Mas o mais impressionante, é talvez a enorme mudança que ele levou no destino do Atlético fora do campo. O sucesso do treinador acabou efetivamente com as dívidas astronômicas do clube e atraiu patrocinadores estrangeiros com a carteira recheada – o grupo Wanda, da China, o conselho do turismo do Azerbaijão, um bilionário israelense – que ajudaram a pagar um novo estádio, salários mais altos, novos jogadores. No verão passado, o Atlético gastou US$ 142 milhões (R$ 618 milhões) na contratação de um único jogador – o português João Félix – e mais US$ 100 milhões (R$ 436 milhões) para reforçar o elenco.

O Atlético, em outras palavras, não é mais o primo pobre: ele paga mais por um jogador do que o Real Madrid, e paga ao seu treinador mais do que qualquer outro time do mundo. O Atlético agora faz parte da elite de Europa. A pergunta agora é onde ficará o treinador que o levou até ali?

O resultado é Deus

Esta tem sido uma temporada de testes. O Atlético é o quarto do Campeonato Espanhol, distante do Real e do Barcelona na corrida ao título e atrás inesperadamente do Getafe, clube de uma das cidades satélites de Madrid. Foi eliminado da Copa do Rei por um time da Segunda Divisão.

Sua força defensiva permanece: somente o Real Madrid concedeu menos gols nesta temporada. As sessões de treino de Simeone ainda são um ponto de referência para os times de toda a Europa. No verão passado, em busca de inspiração para melhorar a própria defesa, o Bournemouth, da Inglaterra, mandou uma delegação só para observar como ele trabalhava.

O problema é a fraqueza do ataque do time. O Atlético marcou 25 gols em 24 jogos. Considerando a quantidade de dinheiro gasta no verão, particularmente com João Félix, para tentar tornar a equipe mais forte, o retorno é insignificante.

Simeone tem consciência disso. Ele tentou contratar Edinson Cavani, em janeiro, para deixar o time mais afiado. Ele se encontrou nas últimas semanas com Miguel Ángel Gil, o diretor executivo do Atlético, e com o diretor esportivo Andrea Berta para discutir como melhorar o desempenho do ataque sem comprometer sua flexibilidade.

O que o Atlético – como clube, como torcida – exige do seu time, mudou de alguma maneira ao longo do caminho, do Calderón até o Metropolitano. Como observou um associado de Simeone, é uma inevitável incongruência jogar um futebol perdedor em uma casa aristocrática.

"No cholismo, o resultado é Deus", escreveu no ano passado o ex-centroavante argentino Jorge Valdano – atualmente colunista do jornal El País, e um dos observadores de futebol mais eruditos da Espanha. Esta foi sempre a lógica de Simeone e a sua defesa: enquanto a sua filosofia produzisse resultados, não haveria reclamações.

Nesta temporada, não está funcionando. Simeone não conseguiu montar um time com um melhor ataque, e todas as antigas virtudes do Atlético não foram suficientes. Na ausência de Deus, a congregação de Simeone começou a perder a fé nele.

Medo e Fé

Nos últimos anos, Simeone emprestou o seu nome a dois livros em colaboração com o jornalista Santi Garcia Busamante. Ambos ficam mais confortáveis nas prateleiras de estilo de vida do que na seção de esportes.

No segundo, uma edição mais longa – intitulado simplesmente Creer (Crer, em tradução livre) – Simeone escreve: "Quando o time adversário percebe que o outro tem medo, ele se aproveita sem misericórdia". Durante a maior parte dos últimos dez anos, isto poderia ter funcionado como sumário do que tornou o Atlético um grande clube.

Agora, ele encapsula como qualquer outra coisa o problema que está enfrentando. Os adversários não temem mais o Atlético. Ao contrário, eles detectam no time de Simeone uma incerteza, uma ansiedade, que salta e ecoa entre o campo e as arquibancadas.

A identidade do Atlético agora se funde com a de Simeone. É difícil imaginar um sem o outro. Mas Simeone nunca acreditou que ele seria imutável.

"Sempre saio antes que eles me ponham para fora", disse certa vez. "E sempre acreditei que eles podem me pôr para fora amanhã." Depois de quase nove anos, pode ter chegado o momento do acerto de contas. O Liverpool, adversário na Liga dos Campeões, poderá ser a sua última celebração. Poderá também ser a sua última resistência.

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