Sergio Gonzalez/AP
Sergio Gonzalez/AP

Erradicar as torcidas organizadas no México não diminui a violência nos estádios, diz pesquisador

Em entrevista para a agência EFE, Roger Magazine, acadêmico que estuda torcedores de futebol, afirma que o problema está relacionado a questões sociais do país mexicano

Redação, Estadão Conteúdo

13 de março de 2022 | 15h52

Para Roger Magazine, professor e pesquisador da Universidade Ibero-Americana da Cidade do México, impedir a entrada das torcidas organizadas nos estádios não é uma medida eficiente para quem deseja acabar com a violência no futebol mexicano. O acadêmico deu a declaração neste domingo, em entrevista a agência de notícia EFE, que o questionou sobre o confronto generalizado entre torcedores na partida entre Querétaro e Atlas, pelo Campeonato Mexicano, no último final de semana, que deixou 26 pessoas feridas.

Para Magazine, doutor em Antopropologia Social pela Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos, a violência manifestada pelos torcedores está ligada à situação social que vive o México atualmente. "As torcidas não são a raiz do problema e removê-las não vai eliminar a violência nos estádios. Não devemos esquecer a situação do país, um dos mais violentos do mundo. Os efeitos dessa violência são vistos em muitas áreas, incluindo o futebol", explicou o pesquisador.

As estatísticas mostram que o México, de fato, vive um dos períodos mais violentos de sua história. Em 2021, foram registrados 33.308 homicídios (mais de 90 por dia) no país, um pouco abaixo dos dois anos anteriores, que tiveram a maior quantidade de assassinatos já contabilizados em território mexicano: 34.640, em 2019; e 34.554, em 2020.

Para o professor, o problema em Querétaro foi provocado por um protocolo frágil de segurança. E afirma, que pela experiência que adquiriu pesquisando o tema, os próprios integrantes de torcidas organizadas se colocam à disposição das autoridades para ajudar na formulação de projetos que tornem os estádios locais mais seguros para assistir às partidas de futebol.

Confrontos como o do último final de semana fazem Magazine temer pela estigmatização dos torcedores organizados, que são defendidos por Magazine. De acordo com o professor, a maioria dos integrantes das "barras", como são conhecidas às torcidas organizadas dos clubes, não são à favor da violência. 

"Se houve um aumento da violência entre grupos de torcedores do país tem a ver com o fato de que quando começaram, há cerca de 25 anos, tinham no máximo 100 ou 200 membros. Agora, temos alguns grupos que têm milhares. Quando você junta tantas pessoas sempre haverá alguns que tendem a atos violentos", disse Roger Magazine, autor do livro "Azul e Dourado como meu coração: masculinidade, juventude e poder no clube UNAM Pumas".

Ainda sobre o problema da estigmatização, o professor tece duras críticas à imprensa. Para ele, a mídia tende analisar os conflitos de forma precipitada e parcial, sendo, até, preconceituosa com os integrantes das organizadas em função das condições socioeconômicas  desses torcedores. 

"Na mídia, antes de haver investigação do que aconteceu em um evento como o de Querétaro, eles culpam os torcedores, chamando-os de 'animais', 'criminosos'. Mas, sem ouví-los. Eles também são discriminados por causa de sua classe social. Nesses grupos muitas pessoas são jovens de colônias e bairros populares", disse.

Em função dos conflitos, o Querétaro foi punido pela direção da Liga MX, responsável pela gestão do campeonato.  Ficou decidido que o time terá de atuar fora de seu estádio por um ano e sem a presença de seus torcedores em todas as categorias. Além disso, foi determinada uma suspensão de cinco anos aos dirigentes do clube, que será obrigado a vender toda equipe nos próximos 365 dias. 

Na opinião de Magazine, o problema não se encerra com as punições ao clubes ou às torcidas, mas atacando o raíz do problema: a violência no México. E acredita também que a situação poderia até ser melhorada se diminuíssem a venda de álcool nos arredores do estádio.

Contudo, incluir os líderes das torcidas organizadas mexicanas nas discussões sobre como melhorar a segurança dos estádios é, para o pesquisador, uma medida fundamental a ser adotada:"são eles aqueles que melhor entendem as práticas de seus membros", justificou Magazine.

  

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