Lisi Niesner/Reuters
Lisi Niesner/Reuters

Após choradeira da torcida, entenda um pouco as regras e notas de alguns esportes, como surfe e judô

Gabriel Medina foi quem mais reclamou da sua eliminação nos Jogos de Tóquio, engrossando o coro dos torcedores no Brasil pelas redes sociais; Maria Portela aceitou o resultado em sua luta

Rafael Sant'Ana, especial para O Estadão

02 de agosto de 2021 | 15h00

Perder no esporte faz parte. Mas perder com um possível erro de arbitragem deixa qualquer um revoltado. A torcida brasileira se sentiu assim em duas ocasiões nos Jogos Olímpicos de Tóquio, uma vez no surfe e outra no judô, duas modalidades que já encerram sua participação no evento, com medalhas, diga-se. Pelas redes sociais, o torcedor, quase sempre somente indignado com o futebol, tratou de colocar a boca no trombone e fazer o que sabe melhor: reclamar da arbitragem.

Dois casos envolvendo atletas brasileiros causaram indignação nas redes. O primeiro foi o de Gabriel Medina, eliminado pelo japonês Kanoa Igarashi na semifinal do surfe no Japão. O segundo ocorreu com a judoca Maria Portela, derrotada nas oitavas de final da categoria até 70kg pela atleta do Comitê Olímpico Russo (ROC), Madina Taizamova. Os dois casos foram tratados de modo diferentes pelos competidores.

Para entender melhor o que aconteceu nesses dois episódios independentes, deixar o leitor mais ciente das regras e fazer sua própria interpretação, o Estadão foi atrás das informaçõess de cada modalidade e dos critérios usados pelos juízes em Tóquio para determinar o vencedor. No caso do surfe, as regras podem se misturar com uma pitada de subjetividade. Esse é um grande problemas para a interpretação de todos.

O surfe tem várias categorias, mas na estreia em Tóquio, o 'shortboard' foi a escolhida. O Brasil esteve na competição com quatro representantes: Tatiana Weston-Webb, Silvana Lima, Italo Ferreira e Gabriel Medina. Os atletas usaram pranchas com tamanho médio de cinco pés e onze polegadas. Em todas as disputas, os atletas tiveram 30 minutos para fazer manobras e receberem notas dos juízes. 

Na primeira rodada, quatro competidores foram divididos em cinco baterias. Pelas regras, os dois melhores avançam para a terceira rodada e os outros dois recebem nova chance na repescagem. Por fim, a última etapa de grupos foi organizada por meio de quatro baterias com quatro atletas. Os dois melhores de cada uma se garantiram nas quartas de final, quando a disputa vira atleta contra atleta.

Os surfistas recebem nota de 0 a 10 pela manobra. Eles podem fazer quantas desejarem, mas só as duas mais altas contam para o resultado. Há uma alternância de preferência na apresentação, os chamados P1, P2 e P3. Preferência 1, preferência 2 e preferência 3. Os critérios utilizados pelos árbitros para as notas levam em consideração o nível de dificuldade da manobra e da onda, a inovação do surfista na apresentação, a variedade das manobras ao longo da bateria, a combinação de movimentos numa mesma onda e ainda a velocidade, força e a plasticidade, o chamada de 'flow'.

Os juízes, que ficam juntos na praia, são autorizados a rever os lances por vídeo se tiverem dúvidas, como o VAR do futebol. Em Tóquio, sete foram escalados, mas apenas cinco atuaram por bateria. Além de serem de diferentes países, todos foram selecionados em uma parceria entre a Associação Internacional de Surfe e a Liga Mundial de Surfe. O Comitê Olímpico Internacional (COI) não participa disso. No entanto, somente alguns desses jurados trabalham regularmente no circuito de elite do esporte. Todos os surfistas percorrem o circuito mundial.

Para definir as notas, é preciso descartar a mais alta e a mais baixa dos juízes em cada movimento. Na sequência, é feita uma média das que sobraram. Assim, o surfista recebe uma pontuação dos jurados, que se for uma das duas mais altas, será somada com outra, dando o valor total. O brasileiro Gabriel Medina fez sete manobras na disputa que o eliminou dos Jogos. Ele tirou 8.33 na primeira onda e 8.43 na quarta. Dessa forma, como não teve notas maiores do que essas, ficou com 16.76 no total. Já Igarashi recebeu uma nota 9.33 em sua quinta onda, que somado com os 7.67 que havia conseguido na primeira, o fez tomar a liderança por 0.24.

Um dos juízes que avaliou o adversário de Medina era brasileiro e deu nota 9 para a manobra final do japonês, bem próxima dos 9,5 dados pelos outros 2 juízes que entraram na conta. A fúria dos torcedores nas redes se deu por esta alta avaliação recebida pelo surfista japonês. Na avaliação dos jurados, com as regras, mas também com o que "acham" que foi a apresentação de Medina, o rival do Japão foi melhor.

DESABAFO DE MEDINA

Na entrevista após a competição, o brasileiro Gabriel Medina se mostrou frustrado com o resultado e disse que "não dá para entender" as notas. "Assisti a bateria. Até por isso segurei minhas palavras, não falaria sem ter assistido antes. Comparando minhas melhores ondas e as duas melhores dele, eu venci a bateria.", afirmou Medina no dia seguinte.

No caso do judô, a história foi diferente, mas as reclamações também ganharam as redes. Esporte de origem japonesa do século 17, o judô é uma arte marcial tradicional. Praticado por homens e mulheres, possui uma vestimenta tradicional também, composta por três peças: o wagui (casaco), o shitabaki (calça) e o obi (faixa). No masculino, existem sete categorias de peso que vão de 60kg a +100kg. Enquanto isso, no feminino, o peso começa em 48kg e termina em +78kg.

Nos Jogos de Tóquio, o Brasil teve 13 representantes. Os principais atletas eram Mayra Aguiar, medalhista de bronze na categoria até 78kg, Rafael 'Baby' Silva, derrotado pela lenda francesa Teddy Riner, e Maria Suelen, que sofreu uma lesão no ligamento patelar do joelho esquerdo e se despediu do Japão antes da disputa por equipes mistas. Mayra entrou em seu lugar, mas o Brasil foi eliminado na repescagem.

Basicamente, o objetivo dos competidores é conseguir pontos levando o adversário ao chão e imobilizando suas costas ou ombro no tatame. Existem dois tipos de pontuação no judô (antes eram quatro): o ippon e o wazari. O primeiro é quando o judoca projeta o adversário de costas no chão com força e velocidade, finalização por chave de braço ou estrangulamento ou imobilização no solo por 20 segundos. 

O segundo ocorre quando o adversário é projetado de costas no chão sem força ou velocidade, ou quando é imobilizado por um tempo de 15 a 19 segundos. Vale destacar que dois wazari equivalem a um ippon e encerram a luta. Normalmente, a luta tem duração de cinco minutos para os homens e quatro para as mulheres. Mas quando há um empate após esse tempo, existe o chamado golden score, um tempo extra para que o atleta que pontuar primeiro vença.

Nas oitavas de final dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Maria Portela esteve no tatame com Taimazova por 14 minutos, mas não perdeu por imobilização, e sim por punição, ou shido. A adversária da gaúcha de Júlio de Castilhos, município de menos de 20 mil habitantes, venceu depois que a brasileira recebeu um terceiro shido por falta de combatividade. Uma punição.

RESILIENTE

Durante o golden score, Portala havia aplicado um wazari na russa, mas o lance foi analisado pelo 'VAR do judô', que decidiu não computar a pontuação. Os juízes entrenderam que o golpe não se concretizou como manda a regra, com as costas totalmente no chão. Mais uma vez, os torcedores foram à loucura com a decisão da arbitragem e consideraram que a vaga de Portela nas quartas de final foi 'garfada'. As redes explodiram em reclamações. Maria Portela não entrou nessa. Ele não comentou da arbitragem e reconheceu que poderia ter ido melhor, numa reação oposta à de Gabriel Medina.

As imagens vistas pelo VAR não mostram que a rival deitou as costas no chão totalmente nem colocou os dois lados do ombro no tatame ao mesmo tempo. Assim, não caracterizou o golpe. Foi quase. As imagens são milimétricas, mas mostram isso, de fato. Portanto, apesar da indignação de nomes conhecidos no esporte como Flávio Canto e Luciano Correa, os jurados de Tóquio estavam certos.

Ao final do combate, a judoca brasileira chorou e deu uma entrevista emocionada ao canal Sportv. "Eu queria muito vencer. Eu treinei muito. Estava muito preparada. Eu ainda não acredito que isso aconteceu. Eu quase a joguei no chão. Infelizmente não deu. Quero agradecer primeiro a Deus por ter chegado até aqui. Tive muitos desafios. Acho que dei tudo ali em cima, mas não deu mais uma vez", lamentou.

Um terceiro caso de revolta nas redes no Brasil ocorreu na ginástica artística, com Rebeca Andrade durante a avaliação da sua conquista da prata. Houve chiadeira da torcida, que durou pouco. A nota foi revisada em Tóquio. A atleta reconheceu que pisou duas vezes fora do espaço permitido e não reclamou das notas. Estava feliz com a prata. Nos três casos, que já ficaram para trás na história dos Jogos de Tóquio, mas que serão lembrados com frequência, sobretudo no surfe, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) preferiu o silêncio e informou ao Estadão que não tinha nada para comentar, que estava tudo certo. As indignações ficaram a critério dos próprios atletas envolvidos, no caso, Gabriel Medina, e, claro, da torcida brasileira. 

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