Montagem COB e Lindsey Wasson/Reuters
Montagem COB e Lindsey Wasson/Reuters

História sendo reescrita: mulheres brasileiras batem recorde de medalhas em uma edição de Olimpíada

Oito conquistas na atual edição dos Jogos superam desempenho da disputa de Pequim, em 2008, quando o Brasil teve sete atletas no pódio; número ainda pode aumentar até o encerramento de Tóquio

Pedro Ramos / Paulo Favero, enviado especial a Tóquio, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2021 | 07h30

As atletas olímpicas do Brasil já conquistaram oito medalhas nos Jogos de Tóquio, o que representa o melhor desempenho do país na história. Nunca antes as atletas subiram em tantos pódios numa mesma edição. Isso representa uma história sendo reescrita. Rayssa Leal (do skate streer) abriu o caminho e puxou a filha, uma garota de apenas 13 anos dando o seu recado em manobras de encher os olhos, precisas e encantadoras. Sua graça foi também percebida na posta.

Rebeca Andrade (duas conquistas na ginástica), Mayra Aguiar (judô), Bia Ferreira (boxe), Ana Marcela Cunha (maratona aquática), Martine Grael/Kahena Kunze (vela) e a dupla de tênis Luisa Stefani e Laura Pigossi seguiram os passos da pequena Rayssa e também festejaram em Tóquio. A boxeadora Bia Ferreira é a única que não sabe a cor de sua medalha ainda porque ela vai disputar a semifinal, mas já tem o bronze garantido. "

O melhor aproveitamento das brasileiras em Olimpíadas havia sido em Pequim-2008, com sete medalhas. Naquela edição, o país festejou pódio com Maurren Maggi (atletismo, ouro), vôlei de quadra (ouro), futebol (prata), Ketleyn Quadros (judô, bronze), Natália Falavigna (taekwondo, bronze), Fernanda Oliveira/Isabel Swan (vela, bronze) e revezamento 4x100m atletismo (Rosemar Coelho Neto, Lucimar de Moura, Thaissa Presti, Rosângela Santos, bronze).

Após a disputa da prova de 10 km, Ana Marcela deu ao Brasil sua sétima conquista nos Jogos de Tóquio. E fez fez questão de tressaltar a força das mulheres. "Mulher pode ser o que ela quiser, onde quiser e na hora que quiser. O tanto que a gente vem recebendo de ajuda e igualdade representa muito para o desempenho do Brasil", disse a nadadora. Talvez ela tenha sido a brasileira que mais destacou esse avanço das mulheres no pódio.

Antes de a competição no Japão começar, o Estadão apontou que os Jogos poderiam ser das mulheres. Havia ao menos três atletas que chamavam as atenções: Simone Biles, Naomi Osaka e Katie Ledecky, todas vencedoras em suas modalidades. O Brasil também despontava nessa disputa homens versus mulheres pela representatividade. O Comitê Olimpíco Internacional (COI) sempre viu com bons olhos a paridade dos gêneros. Nesta edição, as mulheres tiveram 48% de representatividade, numa evolução sem volta. Em Paris-2024, estima-se que essa divisão seja de 50%.

Outros recordes por mulheres foram batidos na atual edição dos Jogos. Rebeca Andrade se tornou a primeira ginasta brasileira a conquistar o ouro e a primeira atleta do país a ganhar duas medalhas em uma única edição. A dupla Luisa Stefani e Laura Pigossi surpreenderam e conquistaram a primeira medalha da história do tênis brasileiro também. Todas elas já eram destaques nas competições nacionais e em algumas provas fora do Brasil.

Além disso, a judoca Mayra Aguiar venceu sua terceira medalha olímpica (Londres-2012, Rio-2016 e Tóquio-2020) e se tornou a atleta com mais medalhas pelo Brasil, igualando Fofão, do vôlei (Atlanta-1996, Sydney-2000 e Pequim-2008), em treês edições também.

As primeiras medalhas olímpicas de atletas brasileiras ocorreram apenas nos Jogos de Atlanta, em 1996. A final do vôlei de praia feminino reuniu duas duplas do país. Enquanto Jaqueline Silva e Sandra Pires levaram o ouro, Monica Rodrigues e Adriana Samuel ficaram com a prata. Ainda nessa edição, o basquete feminino conquistou a prata e o vôlei de quadra ganhou o bronze.

HISTÓRIA

A participação das mulheres nos Jogos Olímpicos não existia. Os Jogos surgiram na Grécia antiga, na cidade de Olímpia, por volta de 776 a.C., e tinham por objetivo homenagear deuses gregos e promover a interação dos povos. Mas as mulheres não podiam sequer assistir às provas. Isso só mudou na Era Moderna, marcada pelo torneio de Atenas, em 1896. Naquela época, esporte ainda era coisa de homem. No Brasil, a participação feminina nos esportes também era proibida, conforme lei de abril de 1941. "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza".

Ocorre que o Barão de Coubertin foi desafiado. Ainda em 1896, um dia após a 1.ª Olimpíada da Era Moderna, houve um protesto. A atleta Stamati Revithi correu o percurso da maratona, uma das modalidades mais tradicionais do programa, no dia seguinte à corrida dos homens. Ela queria mostrar que mulheres também podiam participar. "Que a tocha olímpica siga seu curso através dos tempos para o bem da humanidade cada vez mais ardente, corajosa e pura", disse certa vez o senhor Coubertin.

Em 1900, em Paris, para onde a Olimpíada vai em 2024, as mulheres puderam jogar, mas não ganhavam medalhas iguais aos homens, apenas um certificado de participação. Vinte e duas mulheres competiram no golfe e tênis. Eram as modalidades "adequadas" para elas segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Mais de cem anos depois, elas competem em todas as modalidades olímpicas. Essa equiparação se deu em Londres, em 2012. No Brasil, o decreto de 1941 foi revogado somente em 1979.

Antes disso, em 1932, no mesmo ano em que as mulheres conquistaram o direito ao voto no País, o Brasil teve sua primeira mulher na delegação. Foi Maria Lenk, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Com apenas 17 anos, ela passou por cima do decreto de 1941 e competiu na natação do evento. Foi pioneira. No Rio, em 2016, o time dos Estados Unidos já tinha mais mulheres do que homens em sua delegação. Em Tóquio, o assunto foi tema de muitas discussões. "Trabalhar pela igualdade de gênero é uma das nossas principais metas". disse o diretor-executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI), Christophe Dubi, ainda antes da cerimônia de abertura. 

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