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Uso de maconha em momento de luto tira estrela da Olimpíada. É justo?

Uso de maconha em momento de luto tira estrela da Olimpíada. É justo?

Ao rigor da regra, a resposta é sim. Mas a história de Sha’Carri Richardson abre espaço para discutir muito mais: o lado humano dos superatletas, as atuais regras de doping e (por que não?) a guerra às drogas

João Abel, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2021 | 11h00

Há três semanas, fui apresentado a Sha’Carri Richardson. Fotos e vídeos da sua espetacular performance na seletiva olímpica norte-americana dos 100m rasos inundaram minha timeline. 

O cabelo laranja contra o vento, os longos cílios, as unhas coloridas e o carisma da comemoração abraçando a avó na arquibancada completaram o pacote dessa força da natureza: uma nativa da geração Z, de apenas 21 anos, que cravou o 6º melhor tempo da história da prova entre mulheres: 10,64 segundos. Tive a sensação instantânea de assistir ao nascimento de um potencial ícone olímpico.

Mas a suspensão do resultado de Sha’Carri após testar positivo para o uso de maconha em exame antidoping jogou um balde de água gelada nas expectativas dos EUA de quebrar a hegemonia jamaicana na competição mais nobre (e mais rápida) do atletismo nos Jogos de Tóquio. ‘Quanta injustiça’, pensei.

“Eu sou humana”, tuitou Sha’Carri após o anúncio do exame. Depois, ela ainda compartilhou uma mensagem de outro usuário do Twitter, mas que diz muito sobre seu sentimento: “Há pessoas dizendo que ‘regras são regras’, mas metade de vocês não conseguiu nem cumprir as diretrizes de saúde pública durante uma pandemia”.

Em entrevista à NBC, a atleta pediu desculpas e disse que usou a droga em um momento de luto, após ser informada sobre a morte da mãe biológica, o que a deixou “em pânico” e com um “doloroso estado emocional”. Todo esse contexto aumentou ainda mais meu sentimento de consternação.

Mas, afinal, a decisão que tira Sha’Carri dos Jogos Olímpicos é justa? Ao rigor da regra, a resposta é sim. A Agência Mundial Antidoping (Wada) proíbe o tetrahidrocanabinol, o popular THC, princípio ativo da maconha. Ele entra na lista de químicos vetados apenas durante o período de competições, junto com estimulantes como cocaína e ecstasy, narcóticos como a diacetilmorfina (heroína) e glicocorticoides. É possível ver a relação completa no site da Wada clicando aqui.

O que nos leva a um segundo questionamento: por que a maconha é proibida para atletas? O código antidoping da Wada elenca alguns motivos para restringir substâncias. Entre eles, três principais: o potencial de melhoria no desempenho esportivo, é claro, o risco à saúde e a violação dos valores do ‘espírito olímpico’.

Com estudos ainda pouco aprofundados sobre uma possível efetividade do THC e outros componentes da maconha na performance de atletas, é difícil dizer que Sha’Carri tenha rompido o primeiro fundamento da Wada.

O segundo é bastante questionável, já que o álcool, por exemplo, pode fazer mal à saúde de qualquer pessoa, mas deixou definitivamente a lista de doping da agência em 2017. 

E o terceiro é bastante abstrato. Como dizer que a maconha fere o ‘espírito olímpico’? Sua venda para uso recreativo fere a lei em muitas nações ao redor do globo, mas não em todas. Canadá, Uruguai e dezenas de Estados americanos permitem o uso, como é o caso do Oregon, onde Sha’Carri consumiu a droga. A Suprema Corte do México, na semana passada, descriminalizou a maconha recreativa. 

Mais e mais países do eixo liberal-democrático discutem formas de relaxar punições. Há um entendimento de que o atual modelo de guerra às drogas falhou em reprimir a venda e o consumo. Um debate, aliás, que já chegou com força ao esporte de alto nível. As ligas norte-americanas de beisebol (MLB) e de basquete (NBA) decidiram deixar de punir atletas pelo uso de maconha. 

A própria Wada mudou sua concepção sobre drogas sociais, como maconha e cocaína, no início de 2021. Antes, uma infração como a de Sha’Carri poderia resultar numa suspensão de até quatro anos (!!!). Agora, a agência mundial se propõe a resolver o problema da dependência de drogas como ele realmente deve ser encarado: uma questão de saúde.

Com o novo código, se o atleta provar que não fez o uso para melhora de performance, a pena é de três meses. E se aceitar passar por um programa de aconselhamento, a punição cai para um mês. É exatamente o caso da jovem velocista do US Team, que pode voltar a competir a partir de 30 de julho.

A agência antidoping ainda faz a diferenciação entre o THC e o canabidiol (CBD), que já é utilizado legalmente em muitos países, como o Brasil, para fins medicinais. O brasileiro Daniel Chaves, que vai disputar a maratona olímpica em Tóquio, por exemplo, faz uso regular de cannabis. A história dele foi bem contada pela jornalista Silvia Herrera, no blog ‘Corrida Para Todos’. Vale ler aqui. Também recomendo a ótima série em 4 episódios sobre maconha medicinal produzida pela TV Estadão em 2018.

 

Como uma planta com benefícios chancelados por pesquisas científicas pode causar tanto problema? A ponto de até tirar uma estrela dos Jogos Olímpicos? É o que muita gente se pergunta. Nos Estados Unidos, não faltou apoio a Sha’Carri e revolta por sua suspensão. De atletas das ligas de futebol e artistas e políticos. De Viola Davis a Michelle Obama.

Os congressistas democratas Jamie Raskin e Alexandria Ocasio-Cortez escreveram uma carta para a Wada expressando sua ‘consternação’ e pedindo às agências que reconsiderassem as políticas que levaram à proibição de Sha’Carri.

Pelo Twitter, Ocasio-Cortez disse que a suspensão estava “enraizada apenas no racismo sistêmico que há muito tempo impulsiona as leis antimaconha”.

Fato é que a punição está posta e não veremos Sha’Carri em Tóquio. Havia a expectativa de que ela pudesse participar do revezamento 4x100m, mas acabou não convocada para a equipe americana.

No fim das contas, é um episódio em que todos perdem: Sha’Carri, pela frustração de perder a chance de disputar o ouro; a própria Olimpíada, que não terá uma de suas potenciais protagonistas; a Wada, que segue questionada por regulamentos anacrônicos; e até mesmo a corredora jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, que finalmente teria uma rival à altura na prova dos 100m.

Aos americanos, Sha’Carri já prometeu: ‘Serei campeã mundial ano que vem’. E quem sabe, mais madura, ela embarcará para Paris em 2024.


*João Abel é editor do Drops, no Instagram do Estadão, autor de ‘Bicha’ e coautor de ‘O Contra-Ataque’. Escreve às quartas-feiras.

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