Rick Rycroft/AP
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Genial e genioso, Fernando Alonso inicia contagem para a despedida

Espanhol tem mais nove provas na Fórmula 1 antes de deixar a categoria onde conquistou dois títulos mundiais

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2018 | 06h00

Fernando Alonso começou a trilhar uma carreira vitoriosa na Fórmula 1 ao colocar o relógio para despertar mais cedo. Sempre quis chegar na frente. Mas a decisão não foi para ter mais tempo para treinar. Então com apenas 19 anos e no cockpit da pior equipe da categoria naquela época, a Minardi, o relógio despertava para que ele pudesse chegar à oficina mais cedo do que o colega de escuderia. Motivo? Simplesmente superar o companheiro em qualquer aspecto possível.

O espanhol sempre foi competitivo, genial e temperamental. Bicampeão do mundo, vai deixar a F-1 ao fim desta temporada com um número imenso de seguidores e também de desafetos. Se no começo dos anos 2000 o garotão batia recordes de precocidade e superava o heptacampeão Michael Schumacher nas pistas, o agora veterano de 37 anos virou coadjuvante, notado somente pelas rebeldias e irreverências.

O adeus à categoria, anunciado nesta semana sem aviso prévio, coloca fim a uma carreira que certamente era cotada para terminar com bem mais do que “só” dois títulos mundiais – ambos conquistados no GP do Brasil. Alonso era em 2006 o mais jovem bicampeão do mundo da F-1, mais novo vencedor de corrida e um dos mais promissores nomes do automobilismo. Não era pouco para um cara que ainda chamava a atenção das mulheres. Ele tinha 25 anos, havia feito os espanhóis passarem a gostar de Fórmula 1 e encerrado a hegemonia de Schumacher.

Era difícil apostar que a carreira de Alonso não renderia mais frutos. Elogiado por ex-pilotos como Niki Lauda e Emerson Fittipaldi, duas lendas do automobilismo, Alonso começou a se prejudicar nos anos seguintes pelo apetite que tanto lhe impulsionou na carreira.

Brigas em equipes, relacionamentos difíceis, envolvimento em polêmicas e até um certo azar nas pistas limitaram seu crescimento, logo ele que era apelidado de Príncipe das Astúrias. "Alonso sempre foi competitivo ao extremo. Na época da Minardi, tentava chegar mais cedo do que eu no box. Para ele, superar o companheiro era o primeiro passo para vencer", contou ao Estado o piloto brasileiro Tarso Marques, primeiro companheiro de time de Alonso na F-1. "Ele tem uma coisa que, quando fecha a viseira, parece que são duas pessoas diferentes. Isso acaba dividindo a equipe ao meio", disse recentemente à TV Globo Felipe Massa, ex-colega do espanhol na Ferrari.

Alonso viu a expectativa pelo terceiro título mundial acabar ano a ano. O bicampeão do mundo em 2005 e 2006 foi para a McLaren na temporada seguinte com contrato por três anos. O relacionamento ruim com o companheiro Lewis Hamilton, o envolvimento em espionagem de informações da Ferrari e o título perdido na última corrida deterioraram a relação. O piloto rompeu vínculo e voltou para a Renault.

A escuderia francesa já não tinha a mesma força de antes. Ele já não conseguia andar na frente. Para piorar, seria pivô em outro escândalo. O chefe da escuderia, Flavio Briatore, ordenou ao colega de Alonso, Nelsinho Piquet, para que forçasse um acidente proposital no GP de Cingapura de 2008. A batida naquele momento forçou a entrada do Safety Car e favoreceu o bicampeão a ganhar a corrida. A armação foi descoberta em 2009.

A chance para voltar a ser campeão veio com a longa passagem pela Ferrari, entre 2010 e 2014. Alonso mostrou genialidade, ganhou 11 provas e só não foi além dos três vice-campeonatos porque foi batido pela emergente Red Bull, de Sebastian Vettel. Na mais dolorosa das derrotas, em 2010, perdeu o título porque passou 39 voltas sem conseguir superar o lento Vitaly Petrov no GP final, em Abu Dabi.

Uma nova chance seria no retorno para a McLaren, em 2015. Mesmo com a equipe em crise e sem um bom carro, o talentoso espanhol conseguiu resultados expressivos. Mas, desiludido pela falta de chance de lutar pelo título, passou a ironizar a escuderia. Em comunicação pelo rádio, afirmou que o motor era tão lento quanto um de GP2. Certa vez em Interlagos, subiu ao pódio na sexta-feira para foto. "Não teria outra chance de passar tão perto do pódio", disse.

Este ano, das 12 provas, abandonou quatro. O melhor resultado foi o 5.º lugar na Austrália. A personalidade forte deste torcedor do Real Madrid vai aparecer em outra categoria em 2019. Com adeus programado da F-1 e o plano de ganhar as 500 milhas de Indianápolis, tem mais nove etapas para disputar. O despertador vai tocar em breve. Para ele ir embora.

 

 

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