Marcelo Chello/EFE
Marcelo Chello/EFE

Copa do Mundo começa com desafio de contagiar o Brasil

Mundial da Rússia se inicia nesta quinta-feira, mas ainda não anima os brasileiros

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 00h00

A Copa do Mundo começa nesta quinta-feira com um desafio praticamente inédito: contagiar o torcedor brasileiro, abatido por escândalos na política, dúvidas na economia e ameaças de greves. Diante desse cenário, é inevitável a pergunta: o Mundial vai pegar no País do Futebol?

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“A paixão pelo futebol não morreu. Ela vai aumentar após as partidas, mas o clima é ruim. Há uma desconfiança generalizada no País, um baixo-astral na sociedade gerado pela greve dos caminhoneiros. O brasileiro ainda está alheio à Copa e preocupado com outras coisas. Mas, quando ela começar, vai suscitar grande motivação”, acredita o cientista político Marco Antônio Teixeira.

É inegável que o clima eufórico das Copas anteriores não existe nesse momento no Brasil, que até duas semanas atrás vivia uma paralisação nas estradas que poderia muito bem explicar o sentimento que separa um Mundial (2014) do outro (2018). A paralisação dos caminhoneiros, a disparada do dólar, a falta de emprego, a violência nas principais cidades, a inadimplência e a completa indefinição no cenário da corrida presidencial ajudam a gerar esse clima de distância da competição. Uma pesquisa recente do Ibope mostrou que apenas 24% dos brasileiros afirmavam ter muito interesse no torneio.

Com a greve, o varejo deixou de vender cerca de R$ 245 milhões em televisores, um produto diretamente ligado à Copa. Antes dela, o ritmo das vendas estava parecido ao do mesmo período de 2014. A queda foi de 24%. Quem queria comprar, segurou o desejo. A expectativa dos varejistas é que a retomada aconteça com as vitórias do Brasil na primeira fase da Copa. 

 

Uma outra forma de aferir o interesse do torcedor diz respeito ao canal de busca do Google Trends no Brasil nesta semana. A procura na internet pelo Mundial da Rússia é a menor se comparada no mesmo período às três últimas edições da competição, de 2006 (Alemanha), 2010 (África do Sul) e 2014 (Brasil).

O futebol também foi parar atrás das grades. A CBF, que comanda a seleção, teve um presidente preso por corrupção nos EUA (José Maria Marin) e outro banido do esporte pela Fifa, Marco Polo del Nero, pelo mesmo motivo. Muitos torcedores já perceberam que o esporte moderno virou um grande negócio, que move cada vez mais interesses econômicos e pessoais do que a boa e velha paixão. Nesta quarta-feira, o técnico da Espanha, Julen Lopetegui, foi demitido às vésperas da competição porque aceitou convite do Real Madrid.

Não se pode descartar, no entanto, a possibilidade de a Copa pegar no Brasil, como pegaram todas as outras enquanto a seleção esteve em pé. “O brasileiro sabe que o futebol é hoje um grande negócio, mas ainda mantém sua paixão pela seleção nacional”, diz Teixeira.

O futebol sempre se comportou com certa distância dos acontecimentos políticos e sociais que movem o Brasil. Copa do Mundo sempre foi Copa do Mundo, independentemente das agruras do País. Futebol e política só estiveram juntos nas comemorações. Este ano essa condição foi quebrada pelo próprio técnico Tite ao afirmar ao Estado que não levaria seus jogadores, nem ele próprio iria, para festejar a conquista ou lamentar o fracasso do torneio em Brasília.

A globalização no esporte também pode ajudar a aumentar esse interesse pela disputa. Nesta sexta-feira, por exemplo, há um Portugal e Espanha em Sochi. Com Cristiano Ronaldo em campo e uma Espanha remodelada mesmo sem treinador, não há brasileiro que resistirá ao Mundial. Muito menos quando a seleção brasileira entrar em campo contra a Suíça, no primeiro jogo da fase de grupos, domingo, às 15h, em Rostov.

Em 2014, um bilhão de torcedores sintonizaram na Copa para assistir à decisão no Rio. O torneio registrou audiência residencial de 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo. A Copa só está começando e sua força de novo será testada no Brasil.

 

 

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