Francisco Leong/AFP
Francisco Leong/AFP

Do bullying ao estrelato, Cristiano Ronaldo quer continuar 'temido'

Vítima de comentários jocosos na infância, atacante entra em campo para enfrentar Marrocos nesta quarta-feira, em Moscou

Gonçalo Junior, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 00h00

O jogador mais temido nessa primeira etapa da Copa do Mundo e grande esperança de vitória de Portugal na partida desta quarta-feira contra Marrocos, às 9 horas (de Brasília) em Moscou, quase desistiu da carreira por causa de bullying na infância. Quando tinha 10, 11 anos e saiu do Nacional da Ilha da Madeira para jogar no Sporting, Cristiano Ronaldo era vítima de piadinhas e gozações dos meninos da capital. O problema era seu sotaque – os madeirenses têm um jeito mais carregado de falar –, diferente do de Lisboa. 

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Diziam que ele não falava direito. Não era nada do outro mundo, mas, naquela época, o melhor jogador do mundo ainda não tinha a marra e a autoconfiança de hoje. Por isso, caía no choro no vestiário. Aí, os colegas dobravam as chacotas. Ele se sentiu tão discriminado que pediu para deixar o clube. A carreira do (até agora) astro da Copa quase foi por água abaixo. 

Foi preciso que a família fosse falar com a direção do Sporting. Na aquela época, ainda não havia a palavra bullying, mas a irmã mais velha, Elma, deu piti. Disse que se o irmão não fosse bem tratado, ela própria o levaria embora. Deu uma semana. Funcionou. Nunca mais riram do jeito de falar do atleta que ganharia cinco Bolas de Ouro. 

Dolores Aveiro, a mãe de Cristiano Ronaldo, conta essas histórias pouco conhecidas sobre o astro com entusiasmo. Ela sabe que está revelando pequenos tesouros. Seus tesouros. Nem todos estão na biografia Mãe Coragem, que ela lançou no Brasil no mês passado. 

 

 

Ela estará hoje no estádio de Luzhniki, em Moscou, para torcer para que o filho caçula e o mais bem-sucedido de quatro irmãos consiga sua primeira vitória na Copa. Os dois – mãe e filho – têm um ritual que precisa ser repetido antes de cada jogo: acender uma vela para Nossa Senhora de Fátima. O jogador acende uma; ela acende outra. “Ele não é supersticioso, mas tem muita fé. Acredita”, revela a senhora de 63 anos ao Estado

Mais um pouco sobre o bullying. A razão de Cristiano Ronaldo se sentir tão deslocado na capital portuguesa é porque ele já era um pequeno ídolo no bairro Funchal. Na época, tinha o apelido de Abelhinha, um elogio à sua rapidez no futebol, pois ele passava na frente de todo mundo para ficar com a bola. 

Seu primeiro campo foi a própria rua de terra de casa. Os gols eram feitos de pedras, os famosos paralelepípedos. Quando o carro vinha, o jogo parava. Quando não havia amigos suficientes, Ronaldo ficava chutando a bola na parede. 

O futebol era vida e sonho do menino que não tinha iogurte em casa todo dia. Era um luxo. Quando tinha um potinho, ele fazia questão de fazer um furo embaixo e beber de cima para baixo. Dona Dolores só conseguia comprá-los com as gorjetas que recebia como auxiliar de cozinha. Um dia, o gerente decidiu que as gorjetas seriam apenas para os garçons. O craque ficou sem iogurte. Ele sempre perguntava para a mãe por que seus colegas tinham roupas mais bonitas que as suas. A mãe não respondia e ia para o quarto chorar. 

TEMPOS DIFÍCEIS

O pai de Cristiano Ronaldo, Dinis, nunca foi o mesmo depois da guerra. Em 1961, se juntou às forças portuguesas para combater um clamor das colônias por independência. Dinis voltou, mas era como se não tivesse voltado. Ronaldo não pegou essa época, mas só os reflexos na relação do pai e da mãe, que praticamente se esfarelou. Bebida. Violência. 

Nesse contexto, Dolores decidiu interromper sua quarta gravidez. Esse episódio está no livro. A vizinha recomendou que bastava ferver uma cerveja preta e bebê-la de uma vez. A reação seria espontânea. Não foi. No parto, ela jura que o médico disse: “Com uns pés como esses, vai ser jogador de futebol”. 

Dinis conseguiu se reerguer, parou de beber e arrumou um emprego no Clube de Futebol Andorinha, um clube de bairro em Santo Antonio, para ser uma espécie de roupeiro. O resto é a história do melhor jogador do mundo que quase foi interrompida nas cruéis brincadeiras das crianças das categorias de base do Sporting.

PALCO CONHECIDO

Depois de dez anos, o astro português Cristiano Ronaldo, atualmente no Real Madrid, revê hoje o palco de sua primeira conquista continental. De lá para cá, foram mais quatro títulos da Liga dos Campeões, todos com o time espanhol, e cinco troféus de Melhor Jogador do Mundo. 

Em 21 de maio de 2008, ele defendia o Manchester United, da Inglaterra, e marcou o dele no empate por 1 a 1 com o rival Chelsea pela final da Liga no estádio Luzhniki, em Moscou. Lampard fez o gol do rival de Londres. Com o placar igual, a decisão foi para os pênaltis, e, por um instante, o craque português viu o sonho da conquista continental ser ameaçado. Na terceira cobrança, Ronaldo parou em Petr Cech. Mas para sua sorte, na última chance do Chelsea, Terry também desperdiçou e, na sequência após os cinco tiros, Anelka parou em Van Der Sar, que pegou a sétima cobrança e garantiu o título do Manchester.

Depois daquela disputa, Cristiano Ronaldo voltou ao Luzhniki em 2012, já como atleta merengue, pelo jogo de ida das oitavas de final também da Liga dos Campeões, contra o CSKA. Mais uma vez, marcou um gol. Após vacilo da zaga russa na saída de bola, o jogador aproveitou a sobra para abrir o marcador a favor dos espanhóis. O jogo terminou empatado por 1 a 1, mas o Real Madrid goleou em casa dias depois, por 4 a 1, e foi para as quartas.

O craque atuou ainda outra vez no estádio onde hoje enfrenta o Marrocos. Foi pela seleção portuguesa, quando perdeu para o time da Rússia, em 2012, por 1 a 0, pelas Eliminatórias Europeias para o Mundial do Brasil.

 

 

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