Valéria Gonçalvez
Rosana Souza foi a primeira a mover uma ação judicial contra o Flamengo Valéria Gonçalvez

Rosana Souza foi a primeira a mover uma ação judicial contra o Flamengo Valéria Gonçalvez

Famílias de vítimas do incêndio no Ninho do Urubu reclamam de falta de sensibilidade do Flamengo

'Sinto revolta, angústia e tristeza. O Flamengo está podre por dentro', diz mãe de Rykelmo Viana

Ricardo Magatti , especial para o Estado

Atualizado

Rosana Souza foi a primeira a mover uma ação judicial contra o Flamengo Valéria Gonçalvez

A chuteira laranja florescente exposta na estante da sala da casa de três cômodos em Limeira, interior de São Paulo, é uma das lembranças mais carinhosas que Rosana Souza tem de seu filho Rykelmo Viana. O menino gravou o nome de sua mãe e deu a chuteira para ela como presente dias antes de morrer no incêndio de grandes proporções que atingiu o CT Ninho do Urubu e matou dez jovens entre 14 e 16 anos no dia 8 de fevereiro de 2019. "Sinto revolta, angústia, tristeza. O Flamengo tinha garantia de que poderia ter lucro com eles. Depois do que aconteceu, isso não tem mais valor", reclama Rosana, amargurada com o descaso do clube do Rio.

A maior tragédia da história do Flamengo completa um ano neste sábado ainda sem o apontamento de culpados, com poucos acordos selados entre as famílias das vítimas – três delas e o pai de Rykelmo Viana aceitaram a proposta do clube - e várias reclamações em relação ao Flamengo por falta de diálogo. O incêndio foi provocado por um curto-circuito em um aparelho de ar-condicionado. O fogo consumiu o contêiner onde dormiam os garotos da base.

"O que custa, com tanta contratação, indenizar essas famílias? Será que eles não têm filhos, netos? Entregamos nossos filhos saudáveis, confiando que eles seriam bem cuidados. Os meninos não são animais. Tiveram seus sonhos interrompidos. Houve negligência do Flamengo", dispara a mãe de Rykelmo.

Seu filho começou a carreira na Portuguesa Santista, em Santos. O menino habilidoso era volante e jogava com a camisa 8. No próximo dia 26, completaria 18 anos. "O Flamengo hoje é como uma fruta. Por fora, está bonita, mas por dentro está podre, e essa podridão contamina o resto", atesta a mulher, indignada.

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Não pude nem olhar o caixão dele, isso me traumatizou
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Rosana Souza, mãe de um dos garotos mortos no Ninho

Rosana trabalhava coletando roupas em um hospital em Limeira, mas teve de largar o serviço com o trauma provocado pela trágica morte do filho. "Na coleta de roupa, tinha de entrar em todos os lugares do hospital, inclusive na ala de queimados. Meu filho acabou morrendo carbonizado. Não pude nem olhar o caixão dele, isso me traumatizou", explica Rosana, que tem mais duas filhas, uma delas deficiente. Ela hoje está desempregada e complementa a renda fazendo trabalhos artesanais. 

Rosana foi a primeira a mover uma ação judicial contra o Flamengo. Ela pede na Justiça R$ 6,9 milhões, sendo R$ 3 milhões por danos morais e R$ 3,9 milhões de pensão, além da anulação do acordo do clube com o pai de Rykelmo, José Lopes Viana, de quem é divorciada. 

O segundo a processar o clube rubro-negro será Cristiano Esmério, pai do ex-goleiro Christian. O advogado de Cristiano, Márcio Costa, confirmou ao Estado que finaliza os últimos detalhes  e documentações para entrar com a ação judicial nesta semana ainda, quando se dará um ano do episódio. O valor pedido gira em torno de R$ 9 milhões, incluindo indenização e pensão, e foi calculado com base na carreira dos últimos goleiros revelados pelo time rubro-negro – Júlio César, Marcelo Lomba, Paulo Vitor e César.

"O que me revolta é a falta de respeito e sensibilidade com nós, familiares, que perdemos nossos filhos por causa da irresponsabilidade do clube", diz Cristiano, que é organizador de eventos. Seu filho era um dos mais talentoso das promessas flamenguistas. O jovem, que morreu aos 15 anos, era observado por clubes europeus e vinha sendo convocado para as seleções de base do Brasil.

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Hoje a minha vida, da minha mulher e da minha filha é viver à base de remédios. Remédio para controlar a pressão, a glicose, o colesterol, para dormir e aliviar a depressão
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Wedson Cândido, pai de um dos garotos mortos

A rotina de dor e sofrimento de Rosana e Cristiano é compartilhada por outras oito famílias, que passaram a conviver com problemas de saúde constantes. "Hoje a minha vida, da minha mulher e da minha filha é viver à base de remédios. Remédio para controlar a pressão, a glicose, o colesterol, para dormir e aliviar a depressão", relata Wedson Cândido, pai de Pablo Henrique, que morreu aos 14 anos. O pai do garoto era caminhoneiro e teve de largar o trabalho, assim como a mãe, Sarah Cristina, que era cozinheira em um asilo. Os dois moram em Oliveira, pequena cidade de Minas Gerais localizada a 150 quilômetros de Belo Horizonte. A família tem forte ligação com o futebol, já que o pai, o tio e o avô de Pablo foram jogadores. Hoje, porém, jogar bola ou até mesmo assistir a um jogo não é mais prazeroso.

DOR DOBRADA

O calvário de Marília Barros é ainda maior, de modo que o incêndio que vitimou seu filho no CT do Flamengo não é a primeira tragédia com a qual tem de lidar, e conviver. Ela ficou viúva depois que seu marido foi assassinado a tiros. Dez anos depois, perdeu seu único filho, Arthur Vinicius, batizado com esse nome em homenagem ao maior ídolo da história do Flamengo, Arthur Antunes Coimbra, o Zico. "Não tenho mais um telefonema, um abraço do meu filho. O que ficaram foram as recordações boas, as lembranças, mas é uma dor que a gente sabe que nunca mais vai passar. Nunca mais vou ser feliz novamente. Por que eles não resolvem essa pendência, para acabar com isso de uma vez?", questiona Marília, que tatuou no braço esquerdo a imagem do filho vestido com a camisa do Flamengo.

Arthur faria 15 anos no dia em que foi enterrado em Volta Redonda, sua cidade natal. Foi para comemorar o aniversário do colega que vários meninos dormiram na concentração do clube naquela noite. "Lembro que quando fui falar com o diretor da base, chorei. Eu disse que tinha medo de levar meu único filho para uma cidade violenta como o Rio. Essa era minha única preocupação. E olha só, no lugar onde meu filho deveria estar mais seguro foi onde ele perdeu a vida", recorda Marília. A mãe de Arthur desenvolveu ansiedade, teve alguns problemas de saúde e hoje se apega à fé em Deus para atenuar a angústia.

INSENSIBILIDADE

A principal reclamação das famílias no caso é quanto à inexistência de diálogo do Flamengo. Eles alegam que o clube só se mostrou presente nos dias seguintes à fatalidade. Depois disso, os dirigentes, dizem os familiares, sequer mantiveram contatos regulares. Eles entendem que falta sensibilidade por parte dos dirigentes do Flamengo. Queriam mais atenção e algum carinho.

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Se após o acidente tivessem ido à casa de cada familiar, já estaria tudo resolvido. Queremos um abraço, nos sentir acolhidos
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Darlei Pisetta, pai de uma dos meninos mortos

"O que faltou dessa diretoria foi sensibilidade. Se após o acidente tivessem ido à casa de cada familiar, já estaria tudo resolvido. Queremos um abraço, nos sentir acolhidos", pontua Darlei Pisetta, pai do ex-goleiro Bernardo, morto aos 14 anos. "A gente já perdeu nosso maior bem. Mexer com essa ferida é difícil. Até tentei uma aproximação, mas o clube não conversa com as famílias", acrescenta o gerente de compras, que reside em Indaial-SC.

A fala de Darlei é corroborada por Alba Valéria, mãe de Jorge Eduardo, que morreu aos 15 anos no Ninho. "Não tenho nenhum contato com eles do Flamengo mais. Nunca recebemos um telefonema. Do presidente e dessa diretoria do Flamengo, esperamos justiça e que eles sejam mais humanos", opina a auxiliar de serviços de educação básica, moradora de Além Paraíba-MG.

O defensor público do Rio, Eduardo Chow, também criticou a conduta flamenguista nesses 12 meses pós-tragédia. "É uma situação desigual, mesmo com as instituições públicas presentes, porque o Flamengo tem toda a estrutura e as famílias não. O clube tem uma postura de não dialogar. Não compreendemos as razões dessa postura intransigente", ressalta. A Defensoria Pública do Rio representa a família de Samuel Rosa e também atua no caso na ação coletiva.

Procurado pelo Estado, o Flamengo não quis comentar sobre o assunto. O clube preferiu se pronunciar a respeito das negociações por meio de um vídeo divulgado pela Fla TV, a tevê do clube, em que os dirigentes rubro-negros responderam perguntas previamente selecionadas. "O clube esteve sempre aberto a negociações, mas, depois de muito discutir internamente, nós estabelecemos um teto. Nós estamos dispostos a dentro desse teto discutirmos com as famílias, tentarmos adaptar a cada necessidade específica de família, uma forma de atendê-los dentro daquele teto estabelecido pelo clube", afirmou o presidente Rodrigo Landim, na ocasião.

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O clube esteve sempre aberto a negociações, mas, depois de muito discutir internamente, nós estabelecemos um teto
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Rodrigo Landim, presidente do Flamengo

"Esse valor que nós oferecemos, três famílias e meia aceitaram. Não podemos tratar a tragédia de uma forma para uma família e de outra forma para outra família. O nosso valor oferecido, que nós consideramos satisfatório, e três famílias e meia também consideraram, é a nossa oferta. A gente tem um limite", disse o vice-jurídico, Rodrigo Dunshee.

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Inquérito que investiga incêndio no Ninho do Urubu deve ser concluído neste mês

MP do Rio espera versão final do documento para apontar os responsáveis pela tragédia no CT do Flamengo

Marcio Dolzan e Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 08h00

A tragédia no Ninho do Urubu, que vitimou dez jovens das categorias de base do Flamengo há um ano e deixou outros três feridos, ainda não teve seu inquérito policial concluído e está longe de ter um desfecho na Justiça, seja na esfera cível ou criminal. Em nota enviada ao Estado, o Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (GAEDEST/MPRJ) informou que o inquérito deve ser concluído neste mês de fevereiro.

O MP do Rio também lembrou que, logo após o incêndio, em uma câmara de conciliação, tentou, junto com a Defensoria do Rio e o Ministério Público do Trabalho, um acordo com o Flamengo, mas o clube recusou a proposta extrajudicial.

"O GAEDEST/MPRJ e a Defensoria Pública, desde o início, com o apoio do Ministério Público do Trabalho, propuseram ao clube o modelo de um Programa de Indenização (PI), nos moldes do PI 447 utilizado com sucesso no acidente com o avião da Air France. Tal PI possibilitaria ao Clube cumprir com todas as suas obrigações, conforme a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de maneira rápida, eficiente e definitiva. O clube preferiu não aderir ao modelo do PI e tentar as negociações diretas com as famílias", diz um trecho do comunicado.

A investigação para apontar as causas e os culpados pelo incêndio começou logo após a tragédia e chegou a ter seu inquérito apresentado pelo delegado Márcio Petra, da 42.ª Delegacia de Polícia (Recreio dos Bandeirantes), em maio do ano passado. Ele indiciava oito pessoas, mas foi devolvido pelo MPRJ, que solicitou novas diligências. Um ano depois do incêndio, ainda não foi concluído.

"Após primeira análise do conjunto de provas reunidas e audiências solicitadas pelas defesas dos indiciados, o Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (Gaedest/MPRJ) determinou a realização de mais diligências investigatórias, tais como oitivas de representantes de órgãos técnicos de licenciamento e de engenharia", informou o MPRJ.

Em dezembro, o Ministério Público do Rio devolveu o inquérito pela segunda vez à Polícia Civil, pedindo, desta vez, que a CBF seja intimada para fornecimento de cópia e informações sobre o certificado de clube formador de atletas de base do futebol. O MP também solicitou que a Polícia Civil ouça Marco Polo Del Nero, presidente da CBF à época, e a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj), que é signatária do certificado.

Segundo o órgão, devido "à complexidade da investigação, número de indiciados e variáveis jurídicas", ainda não é possível indicar quantas pessoas serão indiciadas, tampouco sobre quais crimes elas deverão responder.

No Flamengo, o assunto sempre foi tratado de maneira reservada. No último sábado, o presidente Rodolfo Landim, o vice geral e jurídico, Rodrigo Dunshee, e o CEO Reinaldo Belotti, responderam a questões previamente escolhidas pela assessoria rubro-negra e falaram sobre a tragédia à Fla TV, canal oficial do clube. "É uma situação que está sendo vista pela Polícia, pelas autoridades, pela Justiça. No dia que concluírem essa questão, tirarem as conclusões e apontarem as causas e eventuais culpados, aí o Flamengo vai se manifestar internamente", disse Rodrigo Dunshee.

INDENIZAÇÕES

Na esfera cível, apenas três famílias, além do pai de um dos garotos – que é separado da mãe – fecharam acordos de indenização com o Flamengo. Uma cláusula de confidencialidade impede que os valores sejam revelados.

É muito provável que, com o inquérito concluído, outras famílias devem buscar a Justiça contra o Flamengo. "Como a posição do Flamengo tem sido de intransigência para continuar as negociações e querer resolver de uma maneira amigável essa situação, tanto em nível coletivo quanto em nível individual, a única saída parece ser a judicialização do caso", diz ao Estado o defensor público do Estado do Rio de Janeiro, Eduardo Chow. Além de estar envolvido coletivamente no caso, a Defensoria também atua individualmente, representando a família de Samuel Rosa.

A primeira a acionar o clube carioca judicialmente foi Rosana Souza, mãe de Rykelmo Viana. Ela pede R$ 6,9 milhões na Justiça – R$ 3 milhões por danos morais e R$ 3,9 de pensão. Além disso, quer que seja anulado o acordo do clube com o pai de Rykelmo, José Lopes Viana, de quem é divorciada. O próximo a processar o Flamengo será Cristiano Esmério, pai do ex-goleiro Christian. O advogado de Cristiano, Márcio Costa, confirmou ao Estado que irá ingressar nos próximos dias com a ação judicial. O valor pedido gira em torno de R$ 9 milhões, incluindo indenização e pensão, e foi calculado com base na carreira dos últimos goleiros revelados pelo time rubro-negro – Júlio César, Marcelo Lomba, Paulo Victor e César.

Em dezembro, o MPRJ e a Defensoria Pública do Rio conseguiram liminar junto à 1ª Vara Cível da Barra da Tijuca determinando que o Flamengo pague R$ 10 mil mensais a cada uma das famílias dos mortos e dos feridos. Desde que houve o incêndio, o clube vinha fazendo depósitos "espontâneos" de R$ 5 mil a cada mês. "Era para que essas famílias pudessem ter tranquilidade de negociar um acordo com o Flamengo sem ter necessidade emergencial de caixa", justificou Dunshee nas explicações dadas via TV oficial do clube.

VALOR DEFINIDO

Um valor definitivo sobre a indenização a ser paga ainda será definido pela Justiça. Certo é que MPRJ, Defensoria Pública e Flamengo divergem frontalmente dos números – que não são informados diretamente. Para o Flamengo, os valores sugeridos extrapolam o que o clube considera o adequado. "Chegamos a um valor com as famílias que nós consideramos que era muito alto, e muito acima dos precedentes da Justiça brasileira", apontou Rodrigo Dunshee. "É a nossa oferta. A gente tem um limite."

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Chegamos a um valor com as famílias que nós consideramos que era muito alto, e muito acima dos precedentes da Justiça brasileira
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Rodrigo Dunshee, diretor jurídico do Flamengo

Os outros 16 atletas que estavam no CT no dia do incêndio foram indenizados, inclusive os três feridos, Francisco Dyogo e Cauan Emanuel e Jhonata Ventura, este último que ainda se recupera das graves queimaduras sofridas pelo corpo e, por isso, não voltou aos treinos. Em janeiro, cinco dos 16 garotos feridos foram dispensados pelo Flamengo: Felipe Cardoso, João Victor Gasparín, Naydjel Calleb, Wendel Alves e Caike Duarte. O clube alega que a decisão foi tomada embasada em uma avaliação técnica.

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'Queria ver meu filho feliz', diz pai de uma das vítimas que aceitou acordo com o Flamengo

José Lopes Viana isentou o clube de culpa pelo incêndio e diz que há pessoas que querem tirar proveito da situação

Ricardo Magatti, Especial para O Estado

06 de fevereiro de 2020 | 08h00

Alvo de reclamações da maioria das famílias dos dez jovens mortos no incêndio no Ninho do Urubu, há um ano, o Flamengo conseguiu costurar um acordo com três famílias, além do pai de um dos meninos. Se grande parte dos familiares está indignada com a postura flamenguista, há, por outro lado, quem isente o clube de culpa no caso e aceitou o que foi proposto como indenização.

É o caso de José Lopes Viana, pai de Rykelmo, que morreu aos 16 anos e faria 18 no próximo dia 26. "Queria ver meu filho feliz. Queria resolver esse problema logo. Então, aceitei fazer o acordo. Fiz o que era bom para mim e não ligo para o que falam po aí", justifica o cabeleireiro, que mora em Limeira, interior de São Paulo.

Até agora, além do pai de Rykelmo, o Flamengo pagou indenizações para os parentes de Athila Paixão, Gedson Santos e Vitor Isaias. Há uma cláusula de confidenciabilidade que protege a divulgação dos valores pagos. Estimava-se, lá atrás, que o valor oferecido pelo Flamengo aos familiares era em torno de R$ 400 mil. 

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Acho que tem gente querendo levar vantagem nessa situação. Tem pessoas que querem enriquecer às custas do Flamengo
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José Lopes Viana, pai de um menino morto no Ninho

José Lopes Viana é divorcidado da mãe do garoto, Rosana Souza, que foi a primeira a entrar na Justiça contra o clube do Rio. Ela pede, além da indenização, a anulação do acordo feito com o ex-marido. Ele, por sua vez, entende que há pessoas que estão interessadas apenas no dinheiro. "Acho que tem gente querendo levar vantagem nessa situação. Tem pessoas que querem enriquecer às custas do Flamengo".

Logo após o incêndio, o Flamengo passou a pagar R$ 5 mil por mês para cada família. Em dezembro, a Justiça do Rio determinou que o clube subisse para R$ 10 mil, e ainda incluísse na folha de pagamento três outros jovens que ficaram feridos na tragédia. O pagamento deverá ser feito até que sejam definidas as indenizações definitivas. A decisão foi concedida liminarmente a pedido da Defensoria Pública e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, em processo que está correndo na Vara Cível da Barra da Tijuca, zona oeste da cidade.

Josete Valda Adão foi a última a dizer "sim" à proposta de indenização do Flamengo. O entendimento entre as partes se deu em outubro do ano passado. Ela é avó do atacante Vitor Isaías, mas tinha a guarda do menino e o tratava como filho, já que o criou desde os oito meses de idade. "Fiz o que tinha que fazer. Comprei minha casa e o meu carro, que eram sonhos dele (Vitor)", argumenta Josete. "Se disser que estou bem é mentira. Vivi um tratamento de saúde, sinto muita falta do meu filho, mas já determinei que não vou dizer que sou infeliz porque sei que ele não queria me ver mal", acrescenta.

Josete entende que o fogo que consumiu o container onde dormiam os dez garotos foi uma fatalidade e que o Flamengo não tem responsabilidade pelo incêndio. "Para mim foi uma fatalidade. Vou continuar minha vida. Quem sabe da nossa hora é Deus", diz. "Não me arrependo de fazer o acordo. Estou consciente de tudo o que fiz. Não tem nada que pague (a vida do meu filho), mas não adianta chegar lá e pedir milhões e milhões de reais".

Um dos motivos para ela ter aceitado a oferta do clube foi o desejo de não ir à Justiça. Ela é traumatizada com a lentidão no processo do inventário do marido, que ainda não foi concluído. "Tudo que eu não queria era ir para a Justiça, ficar esperando anos por uma decisão".

O Flamengo não entrou em acordo com os familiares de Arthur Vinícius, Bernardo Pisetta, Christian Esmério, Jorge Eduardo, Pablo Herique, e Samuel Rosa. Com a proximidade da conclusão do inquérito policial que apura a responsabilidade pelo incêndio, a tendência é de que mais famílias acionem judicialmente o clube.

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