Paolo Aguilar/EFE
Gabigol foi eleito o melhor da final da Libertadores ao marcar dois gols contra o River Plate  Paolo Aguilar/EFE

Gols, títulos e até redes sociais formam o valor do atleta no mercado

Especialistas apontam que fatores subjetivos tanto ajudam a explicar valorização e desvalorização de jogadores

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 04h30

No início do ano, o atacante Gabriel Barbosa tinha um valor de mercado da ordem de R$ 60 milhões. Hoje, ele vale cerca de R$ 106 milhões, quase o dobro. É o montante mais alto que ele já alcançou na carreira, de acordo com o Transfermarket, site especializado em transferências internacionais. A valorização não se deve apenas aos gols que marcou e aos títulos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores que conquistou com o Flamengo. Entram nessa conta também seu carisma e poder de mobilização, simbolizados pelos cartazes que os torcedores levavam aos estádios com a frase “Hoje tem gol do Gabigol” e até os sósias com barbas pretas e cabelos descoloridos.

Especialistas apontam que a composição do valor de um jogador é formada por aspectos objetivos, como os títulos conquistados, o desempenho dentro de campo e a importância que o jogador tem para o time, mas também por fatores subjetivos, como a maneira como o jogador é visto pela torcida e a imprensa. Outros apontam que as redes sociais estão se transformando em aspecto importante na valorização dos atletas.

Os fatores objetivos envolvem até estudos matemáticos. A consultoria internacional KPMG, por exemplo, desenvolveu uma metodologia baseada em algoritmos, uma espécie de receita matemática para resolver problemas. A empresa analisou as transações de jogadores nas últimas sete temporadas de futebol (de 2012/13 a 2018/19). A partir daí, definiu as principais variáveis que influenciam no valor do jogador.

Entre as principais estão a posição do jogador, idade, contrato, desempenho esportivo individual e sua importância para o time, ações disciplinares (faltas e número de cartões), desempenho do jogador com sua seleção, avaliação dos meios de comunicação sobre o jogador e seu potencial comercial, desempenho da equipe e competitividade da liga que disputa. As atualizações dos valores dos jogadores são divulgadas pela consultoria nos meses de janeiro, setembro e julho.

Na lista de fatores importantes, a idade tem grande peso, pois representa o potencial do atleta de gerar receita em futuras transferências. Curiosamente, o atacante Reiner, de 17 anos, é um dos atletas que mais se valorizou neste ano de ouro do Flamengo. Autor de dois gols na goleada sobre Avaí, na última quinta-feira, ele vale hoje R$ 116 milhões. No mês de agosto, seu valor era de R$ 23 milhões.

“Por questões técnicas, o clube consegue moldar o jovem de acordo com a sua cultura. Além disso, a equipe pode crescer com ele em posicionamento e na forma de atingir novos mercados”, avalia Pedro Daniel, diretor executivo da consultoria Ernst & Young. “Estamos em um mundo de geração de conteúdo. Os clubes valorizam os atletas que trazem esse ativo, que valorizam sua marca em conjunto. Ele é um embaixador da marca”, completa.

Na opinião de Fernando Trevisan, diretor da Trevisan Escola de Negócios, as redes sociais também se tornaram um componente importante. “As redes sociais permitem hoje que milhões de torcedores acompanhem a vida pessoal do jogador e façam continuamente os seus julgamentos. Assim, fatores como número de seguidores, nível de engajamento dos fãs e capacidade de comunicação digital são cada vez mais levados em conta para avaliar o poder mercadológico do atleta”.

Também existe espaço para a percepção que o mercado e a torcida têm de cada atleta. É um aspecto mais subjetivo. Darcio Genicolo Martins, professor do departamento de Economia da PUC-SP e pesquisador em Economia do Futebol, destaca esses outros elementos na definição do valor de um jogador. “Existe um componente subjetivo que não é irrelevante no mercado com relação à percepção de valor de um jogador”, diz o professor.

Aí entra, por exemplo, o valor do palmeirense Dudu, que também se valorizou em 2019. O atacante foi o único jogador poupado dos protestos da torcida por causa da temporada difícil do Palmeiras. O atual campeão brasileiro caiu em todas as competições que disputou, terminou o torneio em grande desvantagem técnica para o Flamengo, mas o atacante é indicado “modelo” para o perfil de contratações no ano que vem. Na derrota para o Flamengo, por 3 a 1, por exemplo, ele foi chamado de “guerreiro” pela torcida no Allianz Parque. Além do bom desempenho técnico, ele “passa” uma imagem positiva. Entre 2018 e 2019, seu valor de mercado saltou de R$ 37 milhões para R$ 69 milhões.

A percepção – aquilo que o atleta “parece” – também vale para exemplos de desvalorização. Mesmo que o São Paulo tenha terminado o ano com a vaga na fase de grupos da Libertadores, o atacante Alexandre Pato não conseguiu surfar na onda de otimismo para 2020. O atacante não deslanchou nesta temporada e seu valor de mercado vem caindo nas últimas temporadas. Seus direitos federativos, que estavam na casa de R$ 41 milhões no início do ano, caíram para R$ 27,8 milhões na reta final da temporada.

“Com um histórico grande de lesões e já tendo passado da idade em que se costuma alcançar o auge de um atleta de futebol, tudo indica que ele não terá o destaque como se imaginava no início da carreira”, diz Fernando Trevisan. 

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No cenário internacional, Neymar perde valor; Cristiano Ronaldo sobe

Brasileiro teve ano marcado por contusões e confusões enquanto português elevou receitas da Juventus

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 04h30

A exemplo do cenário nacional, a composição do valor de mercado das grandes estrelas internacionais é formada por fatores que se localizam dentro e fora de campo. Nesse contexto, especialistas em Economia do Esporte apontam que dois craques internacionais ficaram em lados opostos em 2019 em relação à construção de imagem: Neymar e Cristiano Ronaldo.

“Não há dúvidas de que Neymar é um exemplo negativo e Cristiano Ronaldo é um nome positivo em relação à valorização no mercado em 2019”, opina Raquel Duarte Hadler, professora de Marketing Esportivo da Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas. “Do ponto de vista mercadológico, vamos fatores podem contribuir para a valorização de um atleta. A atuação em campo é central. Mas não é apenas nisso. É preciso olhar o contexto, inclusive a vida pessoal. Se for carismático, com posições firmes e valores morais alinhados com o público, o jogador pode se valorizar. Carisma, reputação e a imagem construída também influenciam no valor de um atleta”, diz a especialista.

Neymar sofreu com lesões seguidas, teve atuações irregulares ao longo da temporada e enfrentou até uma acusação de estupro que acabou arquivada pelo Ministério Público brasileiro. Por conta disso, ele perdeu R$ 277 milhões de valor de mercado, de acordo com um estudo feito pelo Centro Internacional de Estudo do Esporte (CIES), organização independente de pesquisa com sede na Suíça. Hoje, seu valor no mercado é de 180 milhões de euros, de acordo com o site Transfermarket. 

Por outro lado, Cristiano Ronaldo conseguiu transferir grande parte de sua visibilidade e apelo mercadológico do Real Madrid para o Juventus de Turim, seu novo clube em 2019. “Cada vez mais os clubes analisam também a capacidade que o atleta tem de gerar resultado financeiro, além do esportivo: a chegada do Cristiano Ronaldo à Juventus, por exemplo, gerou venda de mais de 520 mil camisas do clube em três dias. Inversamente, um jogador com histórico de comportamento ruim fora de campo tem seu valor depreciado no mercado, já que pode gerar impactos negativos à imagem do seu clube”, opina Fernando Trevisan, criador de cursos e eventos na área de gestão esportiva.

Pedro Daniel, diretor executivo da Ernst & Young, também cita o exemplo do jogador português. “A Juventus teve uma valorização de marca, com impacto nas mídias sociais e posicionamento. Isso é muito importante para um clube”, opina.

Outro ponto de consenso entre estudiosos é que os jogadores serão cada vez mais valorizados. A última janela de transferências na Europa, entre julho e setembro, novamente alcançou valores bilionários. Só as 10 maiores contratações movimentaram quase R$ 25 bilhões.

“A transação do Neymar foi o ponto de inflexão no mercado de transferências, pois trouxe valores que até então não eram cogitados para essas transações. Com o fortalecimento financeiro dos clubes europeus e a necessidade de contarem com estrelas em seus planteis, o mercado continuará aquecido e os valores globais gastos na aquisição de atletas continuarão anualmente aumentando”, opina o advogado Eduardo Carlezzo, especialista em Direito Desportivo.

“O alcance da imagem de um grande jogador tem crescido na medida em que o futebol de aproxima da indústria do entretenimento, o que aumenta o potencial de geração de receita do atleta e do clube. Assim, tudo parece indicar que em breve teremos novas quebras de recorde”, diz Trevisan. 

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