Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Tá russo! Kursk se divide entre o passado e o presente

Justo agora, que eu estava me acostumando com as noites brancas e esse sol que nunca se põe, vem uma cidade que mistura presente e passado

Gonçalo Junior, enviado especial / Kursk, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 04h00

A Batalha de Kursk foi o maior combate de tanques na história. O conflito durante a Segunda Guerra Mundial envolveu mais de 2,7 mil tanques alemães contra cerca de 3,6 mil tanques soviéticos e aproximadamente 2,8 milhões de soldados dos dois lados. Os alemães escolheram uma posição enfraquecida da linha do exército soviético, perto de Kursk, na fronteira entre as atuais Rússia e Ucrânia. A esperança de Hitler era se aproveitar dessa fraqueza e reverter o conflito em território soviético. 

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O ataque foi adiado por dois meses para aguardar a chegada de tanques Panther, ainda em produção naquele momento. Foi o tempo suficiente para os soviéticos construírem milhares de quilômetros de trincheiras, além de instalarem arame farpado, inúmeras minas terrestres e fossos antitanques. Foi uma grande vitória soviética. 

Isso não é só história. O Museu da Guerra, localizado a cerca de 100 quilômetros de Kursk, reproduz o cenário da guerra. Ainda estão lá as trincheiras, o arame farpado e os tanques. É o ponto exato de onde Hitler começou a regredir até os russos marcharem rumo a Berlim. 

É como se o passado intacto e reproduzido em pequenos detalhes quisesse atualizar os horrores do que aconteceu lá para que nunca mais se repitam. As inúmeras estátuas que marcam o centro da cidade - existe uma bem impactante na entrada dela - causam o mesmo efeito. Os moradores de Kursk querem se lembrar para sempre desses horrores para que as novas gerações não repitam o absurdo da guerra. 

 

Na outra ponta da cidade, existem dois shopping centers separados por cerca de 100 metros. Um é mais bonito que o outro. O Central Plaza, por exemplo, tem uma fonte espetacular logo no térreo. Assim que você entra, pá! Estão lá jatos de água coloridos que sobem e descem até o primeiro andar. Um espetáculo. No quarto, existe um parque de diversões completo, com piscina de bolinhas e até montanha-russa. No restaurante, as pessoas acompanham o jogo entre Inglaterra e Bélgica enquanto as crianças brincam com réplicas quase perfeitas de dinossauros. São exemplos do desenvolvimento econômico da cidade, impulsionado principalmente pela chegada de estrangeiros que buscam a Universidade Estatal de Medicina, uma das mais prestigiadas do país. 

Estar em Kursk é olhar para o presente e o passado quase simultaneamente. É como uma viagem no tempo. Com algum sacrifício, é fácil se acostumar com o fuso horário - os médicos recomendam um dia de adaptação para cada hora do fuso. E quando a cidade propõe duas realidades temporais tão diferentes? É também uma diferença de tempos diferentes? Os moradores de Kursk estão habituados com essa cidade do interior, distante 500 quilômetros de Moscou, que ainda é um pouco soviética, mas que tem os dois pés cravados na modernidade capitalista. 

O clima de Copa do Mundo não chegou por aqui. Nem no passado nem no presente. O estudante Gabriel Hiray conta que o futebol só marcou presença quando time da cidade, que disputa a Segunda Divisão do Campeonato Russo, ganhou do CSKA em uma batalha de Davi e Golias. A cidade parou para ver o time grande cair. Gabriel teve de ir atrás da Copa e comprou bilhete para França x Dinamarca. Deu azar. O único 0 a 0 da Copa. Mas ele gosta da cidade. Após dois anos, aprendeu a se encantar com os monumentos de um lado e o lazer de última geração do outro.

Talvez, o espanto seja apenas para os marinheiros de primeira viagem. Kursk propõe uma viagem no tempo em apenas poucas avenidas. Justo agora, que eu estava me acostumando com as noites brancas e esse sol que nunca se põe, vem uma cidade que mistura presente e passado. 

*GONÇALO JUNIOR É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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