Nilton Fukuda/Estadão
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Robson Morelli
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Temos de enxergar esse novo Brasil

Tite tem motivos para mostrar sua decepção. Nem ele próprio conhecia esse sentimento à frente do time

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2018 | 04h00

O torcedor brasileiro passou a fase de preparação da seleção ouvindo algumas definições importantes para o bom desempenho do time na Copa da Rússia. Uma delas dizia respeito à necessidade de o Brasil enfrentar rivais europeus, sempre bem posicionados no meio de campo, frios diante de qualquer situação e perigosos nas jogadas ofensivas, mesmo aqueles de segunda linha, como a Suíça, comparados aos gigantes Alemanha, França, Espanha, só para citar alguns. Tite fez o que pôde para amenizar essa lacuna antes de começar a Copa.

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Outra condição do Brasil era ter jogadores vencedores em seus respectivos clubes, a maioria na Europa. Portanto, era natural supor que não faltaria experiência para ninguém na estreia, sempre nervosa, em Mundiais - lembrando que, em 2014, a seleção brasileira virou para cima da Croácia depois de ter sofrido o primeiro gol.

Por fim, e por experiência de outras edições do torneio, todos sabem que de nada vale a caminhada da seleção nas Eliminatórias, amistosos e afins para uma disputa de Copa do Mundo, quando os classificados, de alguma forma e cada vez mais, se igualam dentro de campo e tornam a vida dos chamados favoritos bem mais dramática. Era só pegar o exemplo da Argentina diante da Islândia no dia anterior para descobrir que o Brasil não teria facilidade em Rostov contra os suíços.

Faltou, portanto, malandragem a um time que todos achavam ser malandro o suficiente numa Copa do Mundo. Malandragem, claro, no bom sentido. Digo isso porque vi um Miranda ingênuo ao aceitar aquele empurrão pelas costas, leve mas empurrão, sem simular uma falta ou um escândalo ou ainda fazer com que o árbitro ao menos tivesse dúvida na jogada contra o Brasil. Dali saiu o gol suíço do empate. O próprio Miranda admitiu que ele poderia ter caído no gramado. 

 

Da mesma forma, Gabriel Jesus poderia ter escolhido o chute a gol ao invés do contato para o pênalti não assinalado. O juiz nada deu e seus parceiros do árbitro de vídeo também não acharam necessário que ele visse as imagens.

A estreia é sempre dura. O Brasil é sempre convocado a ganhar tudo nas Copas. Esse cenário nunca vai mudar, imagino, porque mesmo depois do 7 a 1 não mudou. O que está mudando é a condição da nossa seleção. Isso sim. Talvez até 2002, quando se deu nossa última conquista mundial, a seleção brasileira era vista de uma maneira mais parecida com os times do passado, também vencedores, e até mesmo com aqueles que não ganharam, como a equipe de 1982, a de Sócrates, Falcão e Zico, e dona de um futebol mais vistoso, povoada de craques em campo. Essa seleção não existe mais. Faz três Copas do Mundo (2006, 2010 e 2014) que o Brasil fica pelo caminho. 

Neymar é o único craque do elenco. Nenhum outro no time, nem mesmo Coutinho, fala seu idioma, embora o garoto do Barcelona seja um jogador mais completo. Mas não é genial.

O Brasil não jogou mal. Teve chances de fazer outros gols. Decepcionou 200 milhões de brasileiros na estreia, mas sempre pensamos que vamos ganhar de todos em todas as competições. Não é mais assim. Os adversários melhoraram e o futebol da seleção desceu alguns degraus. Temos de começar a enxergar o Brasil dessa maneira.

E não é só o Brasil que sofre com esse novo cenário do futebol. No dia anterior, a Argentina teve dificuldades para ganhar da... Islândia.

Tite tem motivos para mostrar sua decepção. Nem ele próprio conhecia esse sentimento à frente do time. Mas não pode colocar a culpa pelo empate na arbitragem de Rostov. Não pode.

Ele sabe pelo que viu dos dois outros adversários do grupo, Sérvia e Costa Rica, que é perfeitamente possível o Brasil somar sete pontos na fase classificatória. Danem-se as estatísticas que dizem que a seleção brasileira quase sempre estreia com vitória em Copa do Mundo. A disputa não se resume a uma única partida. Bom até sentir esse dissabor no começo porque ele pode fazer com que o time jogue melhor e tenha outra postura. Vi ainda um Neymar ansioso e nervoso, sem espaço para criar e fazer suas boas jogadas. Mas certamente ele já sabia que seria assim. Poderia perder a mania de pressionar a arbitragem, discutir com o juiz, reclamar das faltas sofridas, mesmo sabendo que sofreu muitas faltas. Neymar está mais maduro, mas ainda não o suficiente para encarar algumas situações de jogo contra ele.

E a Tite deixo aqui minhas últimas frases. Demorou para colocar Roberto Firmino no jogo, poderia ter mantido o atacante do Liverpool ao lado de Gabriel Jesus. Tirou Casemiro pelo cartão amarelo. Gastou troca. E optou por Renato Augusto, que duvido que alguém imaginava que entraria. 

*ROBSON MORELLI É EDITOR DE ESPORTES DO ESTADÃO

 

 

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