Indianapolis Motor Speedway/LLC Photography
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Conheça o campeonato de automobilismo apenas para as mulheres

Disputada apenas por pilotas, a W Series terá seis provas em circuitos tradicionais e pretende ampliar o espaço na F-1; brasileira faz testes para correr

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2018 | 04h30

O mundo do automobilismo terá maior presença feminina na próxima temporada. Com a chance de contar com uma brasileira no grid, a W Series quer transformar o esporte a motor ao lançar um torneio somente com mulheres na pista. A meta é ambiciosa: colocar uma piloto na F-1 nos próximos anos. Atualmente, só homens correm na categoria. Há mulheres em modalidades mistas, como a Indy

“Acordo no meio da noite com sonhos de ver uma mulher num carro de F-1”, disse ao Estado Catherine Bond Muir, CEO da W Series. É ela que tenta colocar a categoria na pista. O objetivo, contudo, ainda está distante e a própria dirigente prefere manter os pés no chão. “Decidimos, no momento, não estabelecer prazos para isso acontecer, ganhar a Fórmula 1.” 

Enfrentando preconceitos e as dificuldades naturais de se lançar uma categoria de automobilismo, Catherine anunciou a criação do torneio em outubro após constatar a rara presença das mulheres nas principais competições da modalidade. “Percebi que precisávamos ter uma categoria só para elas. Para dar chance para as mulheres mostrarem seus talentos.” 

Para tanto, se cercou de notáveis da área, como o ex-piloto da F-1 David Coulthard e Adrian Newey, um dos principais projetistas da categoria, atualmente na Red Bull. “A presença deles no projeto é muito importante para a nossa credibilidade e também pelos conselhos que nos dão. São pessoas com muita experiência na área. Já nos apresentaram a diversos profissionais que trabalham diariamente com automobilismo”, comentou Catherine.

Com ajuda da dupla e da DTM, categoria de carros de turismo da Alemanha, a CEO da W Series criou o campeonato que já tem calendário definido para 2019. Serão seis etapas entre maio e agosto, em circuitos famosos, como Hockenheim, na Alemanha, e Brands Hatch, na Inglaterra. A nova categoria vai acompanhar parte da temporada da DTM, contando com a ajuda de seu suporte técnico.

Para o futuro, Catherine não descarta chegar às Américas. O Brasil é uma possibilidade. “Seria ótimo fazer uma prova aí. O País tem grande história no automobilismo”, disse ao Estado. 

Ainda em busca de patrocinadores, a W Series terá sua primeira temporada bancada por investidores da área financeira de Londres. Catherine aproveitou seus contatos em sua trajetória como advogada da área de esportes e de investimentos para levantar fundos com conhecidos. “Procurei diversos investidores, principalmente de bancos de investimento”, conta. 

Patrocínios mais sólidos, contudo, não existem. “Estamos conversando com muitas empresas. Mas tudo depende ainda do espaço que vamos obter na mídia e na televisão. Estamos trabalhando duro para tentar vender os direitos de transmissão da competição”, diz.

Mesmo com fundos ainda limitados, a categoria apresenta uma novidade na questão dos recursos. Ao contrário da grande maioria dos torneios pelo mundo, a W Series não vai cobrar pela participação das futuras pilotos. Bancará todos os custos e vai oferecer premiação total de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 5,8 milhões), sendo US$ 500 mil (R$ 1,9 milhão) para a vencedora. Todas as demais competidoras também vão receber parte do valor estipulado.

As 18 futuras pilotos da nova competição ainda estão sendo escolhidas para guiar os carros modelo Tatuus T-318, que costuma ser usado na Fórmula 3. A brasileira Bruna Tomaselli foi uma das 55 pré-selecionadas na primeira fase do processo. Foram mais de 100 inscrições, de 30 países diferentes, de acordo com Catherine. A piloto catarinense, de 21 anos, foi chamada com base em seu currículo e com a ajuda de Bia Figueiredo – a corredora que já disputou as 500 Milhas de Indianápolis (Indy) era a primeira opção da W Series, mas, por já ter compromissos em categorias para 2019, ela indicou a compatriota. 

Agora, Bruna se prepara para a segunda fase do processo seletivo, que será realizada no fim de janeiro, na Áustria. Serão testes físicos e de simulador para análise da capacidade das pilotas. Coulthard e o também ex-piloto da F-1 Alexander Wurz vão participar das avaliações.

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FIA aprova categoria feminina, mas quer mulheres contra homens nas pistas

 

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FIA aprova categoria feminina, mas quer mulheres contra homens nas pistas

W Series conta com aprovação da Federação Internacional de Automobilismo, mas enfrenta resistência dentro da modalidade

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2018 | 04h30

Anunciada em outubro, a W Series já conta com a aprovação da Federação Internacional de Automobilismo (FIA, na sigla em francês). Mas enfrenta certa resistência dentro da modalidade, mesmo entre as mulheres. O maior incômodo é quanto à reserva de mercado para as pilotas, que ficariam em uma "bolha", sem a disputa com o sexo masculino. Para os críticos, as mulheres deveriam buscar competir lado a lado com os homens em todas as categorias.

Mesmo dentro da FIA, a avaliação é de que as pilotas não deveriam competir separadamente. "É sempre positivo ver mulheres participando de eventos (corridas e campeonatos) e sendo vistas por patrocinadores, recebendo oportunidades. Mas o interessante é que a mulher possa competir no mesmo ambiente que os homens, sem ter uma categoria separada", disse ao Estado, Fabiana Ecclestone, que integra a Comissão de Mulheres no Automobilismo da FIA.

Na ativa há mais de 10 anos, a comissão tenta promover o trabalho feminino também fora das pistas. "Tentamos ampliar a participação das mulheres no automobilismo como um todo e não somente nas pistas. Desde o piloto até os demais profissionais, como parte médica, comissários, copiloto (dependendo da categoria). Tentamos mostrar que, apesar de ser um ambiente extremamente masculino, existe a possibilidade de as mulheres participarem", afirmou Fabiana.

No entanto, ela admite que o processo de mudança é demorado. "Gostaríamos de ter mulheres competindo na Fórmula 1, mais mulheres nas categorias de base. Existe um trabalho muito grande para fazer com que estas meninas, que são muito talentosas, consigam lugares para representar a categoria feminina como um todo", disse, referindo-se as jovens pré-selecionadas para a W Series.

Para tanto, a FIA aposta no momento em dois projetos: o Girls on Track ("Garotas na pista", em uma tradução livre) e o Dare to be different ("Ouse ser diferente"). No primeiro, a FIA proporciona um dia de pista para adolescentes em karts. As melhores são selecionadas para uma final em 2019, somente na Europa.

O segundo é liderado por Susie Wolff, ex-pilota de desenvolvimento da Williams na Fórmula 1 e esposa de Toto Wolff, o poderoso chefe da equipe Mercedes. O projeto lida com meninas entre oito e 12 anos. Em um primeiro contato com o automobilismo, elas passam um dia conhecendo todos os aspectos da modalidade, como trabalho físico, noções de pilotagem e contato com a imprensa.

Além disso, a FIA se apoia em "embaixadoras" para divulgar a atuação feminina no esporte. Claire Williams, chefe de equipe da Williams, e a colombiana Tatiana Calderón são algumas delas. Calderón, por sinal, já fez testes em carros da Fórmula 1 e tenta uma vaga no grid da F-2 para 2019.

Estas iniciativas já estão dando resultados. De acordo com Fabiana Ecclestone, que vem a ser esposa de Bernie Ecclestone, ex-chefão da Fórmula 1, já houve testes em que mulheres superaram homens nos mesmos carros e na mesma pista. "Isso foi um resultado bastante positivo, ficamos surpresos. Há potencial e qualidade nas mulheres. O que elas precisam é de ter a oportunidade para fazer um teste ou de correr em uma equipe", disse a brasileira, sem revelar detalhes sobre os testes.

 

 

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'Fui criando uma casca para me proteger do assédio', diz Bia Figueiredo

Aos 33 anos, ela conta como é ser uma das raras mulheres no universo do automobilismo e como dribla o preconceito

Entrevista com

Bia Figueiredo, pilota de Fórmula Indy

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2018 | 04h30

Não faz muito tempo que Bia Figueiredo percebeu um erro de postura que vinha cometendo: imersa desde os 8 anos de idade no automobilismo, acabou tendo parte da personalidade moldada por um universo formado por homens e não se importava em ser exemplo para outras mulheres. Não que a atual piloto de Stock Car, primeira brasileira a correr na Indy e a disputar as 500 Milhas de Indianápolis, tenha se tornado uma ativista dos movimentos feministas. Mas hoje, aos 33 anos, 25 dedicados às pistas, ela entende melhor seu papel. E revela, nesta entrevista ao Estado, como foi criando uma “casca” para se proteger do assédio nas pistas.

Você é a única mulher em grandes categorias no Brasil?

Tem de considerar a Débora Rodrigues (F-Truck), que já está há alguns anos competindo.

Imagino que dê para contar nos dedos o número de mulheres com as quais trabalhou...

Correndo, mesmo, não foram muitas. Acho que está melhorando, mas como há poucas mulheres que gostam da velocidade, também há poucas mulheres engenheiras. Então, não sei. Ou não é incentivado ou é algo genético mesmo, a mulher talvez não tenha tanto essa paixão pela mecânica, pelo carro. Quando você tem uma mulher como piloto, uma referência como engenheira, isso talvez cative e incentive.

Você se viu como um exemplo ao longo da carreira?

Até o momento da Indy, não ligava para isso. Porém, fui vendo a reação das meninas e comecei a entender e me sentir um pouco responsável por abrir mais portas. Mudei a chave e passei a ajudar, a incentivar. Sou embaixadora de um grupo chamado “Karteiras”, são pilotos amadoras de kart. Fazem um torneio o ano todo, e na Granja Viana e Interlagos. Eu corro uma vez por ano. Estou ajudando na carreira da Antonella Bassani (12 anos). 

Mas quando se deu a mudança e você passou a se importar mais com essa imagem?

Não houve um clique. Com o tempo, fui percebendo um erro de postura que estava cometendo, parecia até que eu era machista em alguns sentidos. Comecei a trabalhar com mulheres sem querer no automobilismo, como empresárias. E vi o quão competentes e focadas elas eram. E entendiam detalhes do universo feminino, coisas de família, período menstrual. Pensei: ‘que besteira estou cometendo. Lutei minha carreira toda por igualdade. Se não ajudar as que vêm, não faz sentido isso’. Eu tinha um pequeno preconceito, mas era coisa de crescer em meio a esse universo só com homens. 

Você já sofreu preconceitos?

Ah, tem aquilo que você cresce já ouvindo que mulher não pode ou não sabe dirigir. Quando ganhava corridas, para os meninos era uma vergonha, como se perdessem para um ser inferior. Mas tínhamos 8, 10 anos. Nos EUA, encontrei outro mundo. Lá, a cabeça é mais aberta, preconceito zero. 

E assédio? Já foi vítima?

Tem coisas que acontecem, mas nunca senti que fui assediada. Às vezes pode ter um xaveco mais agressivo, mas nunca me prejudicou. Sou chamada de gostosa o tempo todo. E dou risada. Acabo brincando no sentido de não ligar. Fui criando uma casca para me proteger do assédio.

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‘Na infância, troquei as bonecas pelos carrinhos', diz Bruna Tomaselli

Aos 21 anos, pilota de Santa Catarina é a única brasileira pré-selecionada entre as 55 concorrentes a uma das 18 vagas da WS

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2018 | 04h30

Sonhando com uma vaga no grid da W Series, Bruna Tomaselli reforçou sua preparação física e técnica nos últimos meses, desde que entrou na lista inicial do processo seletivo para se tornar pilota da nova categoria. “Estou fazendo ainda mais academia e simulador para chegar bem preparada e brigar por uma das 18 vagas”, disse a atleta de apenas 21 anos.

 A ansiedade não é por acaso. Numa modalidade fortemente dominada pelos homens, a chance de correr numa nova categoria, reservada às mulheres, é quase única para uma pilota, principalmente no Brasil, onde o automobilismo feminino quase não existe.  A trajetória de Bruna, ainda que iniciante, revela as dificuldades para uma mulher se tornar pilota profissional.

Nascida em Caibi, no extremo oeste de Santa Catarina (quase na Argentina, como ela brinca), a atleta começou no kart aos 7 anos. Nas diferentes categorias em que competiu no País, nunca enfrentou mais do que meia dúzia de rivais. “Em quase todas as provas que disputei, era a única menina.”

Com bons resultados no kart em nível estadual e regional, ela passou a competir em carros de fórmula aos 15 anos. Correu na Fórmula Junior e Fórmula RS até chegar na Fórmula 4 Sul-Americana, em que ficou em quarto lugar em 2015. Em outro bom resultado, ficou em terceiro competindo com mais de 80 adversários no Skusa, uma das principais competições de kart do mundo, nos Estados Unidos, em 2011.

Bruna é bancada pelo pai, dono de uma empresa familiar na mesma Caibi, cidade de 6.213 habitantes, segundo o último IBGE. Foi o apoio da família que permitiu que ela entrasse na USF2000, a “quarta divisão” da Fórmula Indy. “Como no Brasil quase não há categorias de fórmula, havia duas opções: EUA e Europa. Mas só tínhamos condições de bancar a competição nos EUA”, diz a garota, que nunca teve patrocínio ou apoio formal das entidades ligadas à modalidade. 

“Desde pequena eu gostava de carros. Eu desenhava carrinhos, brincava com eles. Troquei as bonecas pelos carrinhos”, lembra a pilota. Fã de Ayrton Senna, Michael Schumacher e Felipe Massa, a catarinense não esconde que seu maior sonho é chegar à F-1. E o caminho pode passar pela W Series. Para tanto, ela conta com uma ajuda especial. “Bia Figueiredo me disse um dia que seria a minha madrinha no automobilismo. E foi ela que me indicou à W Series.”

A indicação foi decisiva para a jovem brasileira entrar na primeira fase do processo seletivo, segundo disse ao Estado Catherine Bond Muir, CEO do novo campeonato. “Nós nos conhecemos em Santa Cruz (RS) numa corrida da Formula Junior. Ela corria pela Stock Car no mesmo circuito. Trocamos mensagens e hoje a procuro sempre quando tenho dúvidas de pilotagem. Mantemos contato sempre”, diz a catarinense.

Bruna é uma das 55 pré-selecionadas para a segunda etapa de avaliação da W Series. No fim de janeiro, ela viajará para a Áustria, onde será realizado novo estágio do processo de escolha das 18 pilotas que estarão no grid da primeira etapa da nova competição. As escolhidas serão conhecidas somente em maio, às vésperas da temporada, que contará com seis etapas na Europa. 

 

 

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