Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Fliperamas e games dos anos 80 formam o acervo de museu em Moscou

Museu do Arcade Soviético foi criado por três jovens, que passaram a buscar as máquinas em países que compunham a antiga URSS

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2018 | 05h00

Imagine-se a bordo da versão russa do DeLorean DMC-12, ao lado do doutor Emmett Brown e de Marty McFly - o carro e os protagonistas da franquia De Volta Para o Futuro. Num piscar de olhos, viajamos no tempo e desembarcamos na capital da URSS, no início dos anos 70. Devidamente ambientados, agora sim podemos explorar o Museu do Arcade Soviético em Moscou, um fliperama cheio de jogos antigos que mostra para os visitantes como as crianças, adolescentes e até mesmo os adultos se divertiam por aqui nos tempos da Guerra Fria, quando o país não importava quase nada dos Estados Unidos.

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Entre acampamentos à beira do Mar Negro, visitas ao Planetário e passeios pelo Parque Gorky, em 1971 a capital da União Soviética, Moscou, recebeu uma feira internacional de máquinas de fliperama. Além do Gorky, outro parque da cidade recebeu o evento, o Izmailovo. Na época, 20 mil pessoas visitaram os locais por dia, número considerado muito alto. Mas a feira foi embora e os soviéticos ficaram sem as máquinas de arcade. 

Em 1975, o então ministro da Cultura autorizou a adaptação dos poucos fliperamas que sobraram - quando se pergunta sobre “espionagem” no museu todo mundo desconversa. Além dessa adaptação, ele ainda ordenou a criação de jogos próprios, com base no que já se sabia. Assim, os games passaram a ser desenvolvidos e produzidos em 22 fábricas militares secretas espalhadas pela URSS. Foram criadas mais de 100 máquinas.

O museu, que tem uma filial em São Petersburgo, foi criado por três jovens, que passaram a buscar as máquinas em países que compunham a antiga URSS. Muita coisa foi encontrada jogada em celeiros, por exemplo. Depois de reformados, os jogos voltaram a funcionar e, em 2007, o local foi aberto ao público. Logo na entrada, a simpática atendente explica, em inglês, que o museu não é só para olhar. Por 450 rublos (o equivalente a R$ 27), o visitante recebe uma caixinha de fósforos com 15 fichas, 15 moedas de copeques da antiga URSS (1 rublo é composto por 100 copeques), para entrar de cabeça no mundo dos games soviéticos.

 

A primeira máquina simula um jogo de basquete e é uma das preferidas dos visitantes. Dois jogadores possuem 15 botões cada e, cada vez que a bola cai em uma das área delimitadas, é possível passá-la para outro jogador ou tentar a cesta. “É o jogo mais legal. Você fica preso na dinâmica, muito divertido e desafiador”, diz o goiano Luciano Santos, que estava no museu durante a visita do Estado

Entre os jogos de esportes, ainda estão vários tipos de pebolim (o mais curioso é o que os bonequinhos são jogadores de hóquei no gelo, com taco e tudo, e não de futebol), vários sobre corrida de automóveis - um deles é praticamente idêntico ao jogo Enduro, para Atari (espionagem?) - e, ainda, um com corrida de cavalos.

Na sequência da visita, a corrida espacial ganha corpo no museu. No segundo jogo, o S.O.S, o objetivo é ajudar o astronauta a superar 14 fases, entre elas uma chuva de asteroides e piratas cósmicos. Nesse perfil de game ainda estão outras máquinas, como a do jogo muito parecido com games para Atari e Odyssey, videogames populares no Brasil nos anos 70 e 80. Seguindo, o visitante passa pela máquina de pinball, em que o jogador aperta botões com as duas mãos e movimenta duas ou mais palhetas para mandar uma bolinha de ferro de volta ao jogo.

Chama a atenção a quantidade de jogos de guerra. Mas não espere nada parecido com Battelfield ou Call of Duty, sucessos no PlayStation, X-Box e PC’s. Aqui, tudo é estático, com pouco movimento e muito jogo de luzes, sons e cenários desenhados literalmente na mão. Na Batalha Naval, o visitante precisa acertar mísseis em barcos inimigos. Outros tipos de game presentes em abundância na infância soviética foram os de tiro em primeira pessoa. Em um deles, o visitante precisa calibrar a mira para acertar ursos polares. 

No meio disso tudo, as amigas Irina e Sofia, de 12 anos, que estavam no fliperama acompanhadas pela avó de Irina, mais olhavam que jogavam. “A gente veio porque meu pai disse que ele jogava isso tudo. Mas acho estranho, não consigo entender essas coisas”, disse Irina. Sofia concordou. “Esse do basquete até é bem legal. Mas não vou atirar no urso”, brincou a garota. 

 

 

 

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