Hélvio Romero/Estadão
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Quem clama por justiça?

Enquanto dirigentes do Flamengo fazem constrangedora pseudo-entrevista, poucos pedem punição aos responsáveis pelo incêndio no Ninho

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2020 | 04h00

Athila Paixão, tinha 14 anos, mesma idade de Arthur Vinícius de Barros Silva Freitas, Bernardo Pisetta, Gedson Santos e Pablo Henrique da Silva Matos. Christian Esmério tinha 15, assim como Jorge Eduardo Santos, Samuel Thomas Rosa e Vitor Isaías. Rykelmo de Souza Vianna havia chegado aos 16. 

Os dez meninos morreram queimados no Centro de Treinamentos do Flamengo, o Ninho do Urubu, em 8 de fevereiro de 2019. A tragédia completará um ano no próximo sábado. Sete e meia das dez famílias dos adolescentes mortos ainda não chegaram a um acordo com o clube para receber suas indenizações.

O episódio mais macabro da história do futebol brasileiro escancara nossa decadência enquanto sociedade. Poucos brasileiros clamam por justiça. Sim, justiça. E o que se pode entender como tal? A identificação e punição dos responsáveis pelo incêndio que ceifou as vidas dos dez meninos.

O inquérito se arrasta. Na semana passada o Ministério Público (MP) emitiu nota informando que o Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor do MP do Rio de Janeiro (GAEDEST/MPRJ) tem previsão de receber da delegacia o inquérito concluído ainda no mês de fevereiro. Vejamos se haverá um real avanço nas investigações.

No último sábado, presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, o vice geral e jurídico, Rodrigo Dunshee, e o CEO, Reinaldo Belotti se apresentaram nas mídias sociais do clube numa constrangedora pseudo-entrevista. As perguntas, enviadas por jornalistas, eram feitas por uma apresentadora da Fla TV, o canal rubro-negro no YouTube.

Óbvio que no lugar daquele, digamos, pronunciamento coletivo, os dirigentes deveriam ter concedido uma entrevista coletiva de verdade, com repórteres fazendo as perguntas. Sem contraponto, sem a possibilidade de questionamento após respostas insatisfatórias, pouco valeu a aparição do trio.

Em meio a tudo isso, nas redes sociais, nas discussões fúteis sobre futebol, o que mais se lê e ouve é a frase “paguem as famílias” toda vez que torcedor de algum clube debate com um flamenguista. É a mórbida utilização de uma tragédia para fomentar um confronto de ideias absolutamente irrelevante no contexto.

Ao mesmo tempo, há um ponto de reflexão a partir a maneira como muitos se referem à falta de acordo e, consequentemente, o não pagamento das indenizações. Fica parecendo que tudo se resume ao dinheiro, como se o problema fosse apenas financeiro. Quem clama por justiça? Poucos, pouquíssimos.

Imagine um acidente aéreo que provoque cem mortes. Se os milionários proprietários da companhia indenizarem os familiares das vítimas estará tudo bem? Sem inquérito policial? Sem investigação e identificação dos responsáveis? Indenizar as famílias dos meninos é obrigação do Flamengo, mas não basta. É preciso justiça!

PUNIÇÃO CONTRA O FUTEBOL

Janderson tinha um cartão amarelo quando fez o segundo gol na vitória sobre o Santos por 2 a 0, em Itaquera. Correu para os braços da torcida e recebeu nova advertência. Consequentemente o jovem atacante do Corinthians foi expulso. Expulso por comemorar um gol com o povo.

Sim, sabemos que a recomendação dada aos árbitros é essa. Por isso, nem se trata de questionar sua decisão, por mais bizarra que tenha sido. Mas regras e leis não existem apenas para serem respeitadas. Elas, em muitos casos, devem ser questionadas, para que sejam aprimoradas e, em alguns casos, extintas.

É o caso específico. Não tem o menor cabimento a punição a um jogador na celebração de um gol. No exterior é comum vermos os autores de gols se atirando nos braços da torcida, protagonizando cenas emocionantes e seguindo em campo sem punição. Por que essa punição é também contra o futebol.

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