Christophe Ena/ AP
Christophe Ena/ AP

Seleção da Suécia fica melhor sem a presença do astro Ibrahimovic

Ausência do atacante fortalece o time sueco, que volta às quartas de final após 24 anos

Rory Smith/The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 05h00

Para dois terços dos suecos, chamá-lo era uma má ideia. O técnico da seleção sueca, Janne Andersson, garantiu que não estava nem considerando a hipótese. Quanto ao país, já estava cansado de esperar e tentar adivinhar o que aconteceria.

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Por fim, acabou a paciência dos próprios jogadores – que, afinal, seriam seus companheiros de equipe. Eles achavam que o debate era pura encenação visando a “incrementar negócios”, como colocou o capitão, Andreas Granqvist.

Coube a Lars Richt, gerente geral do time, ligar para Los Angeles, onde Zlatan Ibrahimovic joga na Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol dos Estados Unidos e Canadá. Em 24 de abril, Ritch ligou. Não foi uma convocação ou um apelo, nem mesmo uma tentativa de cativar um jogador que ele conhecia havia mais de uma década e considerava um amigo. Richt fez apenas uma pergunta e voltou com a resposta.

“Falei com Zlatan terça-feira”, anunciou. Richt. “Ele confirmou que não mudou de ideia sobre jogar para a seleção. Ou seja, a resposta foi ‘não’.”

É meio embaraçoso falar de Ibrahimovic imediatamente após a Suécia chegar às quartas de final da Copa do Mundo, pela primeira vez em 24 anos. Ele não participou da até aqui notável performance da Suécia – que eliminou a Holanda, a Itália e, durante a Copa, a Alemanha campeã e, finalmente, a Suíça.

Assim, focar em Ibrahimovic é quase uma injustiça com aqueles que estão na Rússia levando a Suécia mais longe do que eles próprios e o público poderiam imaginar. Além disso, é também aquilo de que Ibrahimovic mais gosta: ser a figura dominante mesmo sem estar presente (até agora, ele não fez nada para se distanciar dessa ideia).

 

Isso se tornou sua marca registrada, seu ponto de venda. É difícil dizer onde acaba o marketing e começa o homem. A única coisa que importa é vender sua imagem. E para vender ele precisa continuar sendo o centro das atenções. Daí sua declaração recente de que ainda é melhor do que o time sueco que deixou para trás.

O que a seleção sueca vem conquistando torna lamentável que um jogador, que não fez nenhum gol em quatro partidas em Copas do Mundo, venha a ser o prisma pelo qual ela é vista e interpretada. Lamentável, mas necessário, porque sem a saída de Ibrahimovic essa equipe poderia não existir. Na verdade, trata-se de uma equipe forjada primeiro pela presença de Ibrahimovic e, depois, por sua ausência.

A palavra que os jogadores da seleção sueca mais enfatizam quando conversam entre si é “coletivo”. Isso vem diretamente de Andersson, o técnico, mas também tem raízes na reação ao tempo em que a seleção era um culto a um indivíduo.

Para observadores da equipe sueca na Eurocopa de 2016, é como se Ibrahimovic – supostamente o melhor jogador que a Suécia já produziu – mais inibisse do que inspirasse os companheiros. Eles pareciam se apagar quando eram chamados a corresponder aos altos padrões de Ibrahimovic.

Sem o astro, Andersson pôde criar um clima oposto. Esta Suécia é a Suécia anti-Ibrahimovic – um time forte porque, paradoxalmente, teria ficado mais fraco. A Suécia está livre para ser ela mesma, e não o que Ibrahimovic precisava que ela fosse. A Suécia agora pode respirar.

A equipe capitalizou o ambiente mais relaxado que marcou seus preparativos. Só um exemplo: no tempo de Ibrahimovic, os colegas de equipe ficavam nervosos quando falavam com repórteres. Agora, conversam descontraidamente. O medo de contrariar o líder os travava.

O momento atual não poderia ser melhor. Esta vem sendo a Copa do Mundo do coletivo, mais que do individual. A Argentina, projetada em função de Lionel Messi, caiu, assim com o Portugal dominado por Cristiano Ronaldo.

Mais abaixo na cadeia alimentar, o Egito de Mohamed Salah, a Polônia de Robert Lewandowski e a Sérvia de Sergej Milinkovic-Savic foram eliminados por seleções menos estreladas, porém mais unidas em seus propósitos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

 

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