François Lenoir/Reuters
François Lenoir/Reuters

Tá russo! Sochi, a cidade das crianças

Sochi traz aquilo que nos deixa com saudades dos nossos: a pureza dos pequenos

Leandro Silveira, enviado especial / Sochi, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 04h00

É como se a cidade fosse um pátio de escola no momento do intervalo entre as aulas. Em Sochi, onde quer que você olhe, parece impossível não enxergar alguma criança nas proximidades. É um dos milagres provocados pelo verão na cidade onde jornalistas brasileiros correm atrás da seleção nacional e acabam trombando diariamente na multiplicação de crianças.

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Levantamentos estatísticos apontam um crescimento demográfico reduzido da Rússia nos últimos anos, de cerca de apenas 0,2%, com uma taxa de fecundidade de 1,75 filho por mulher. Pouco mais de 15% da população do país, de 140 milhões de habitantes, tem entre zero e 15 anos. 

Porém, em anos recentes, o presidente Vladimir Putin passou a investir alto para debelar a queda da população russa, intensificada no início dos anos 1990, coincidindo com o fim da gestão comunista. Ele prometeu e realizou investimentos elevados para aumentar a taxa de natalidade, algo que acabou acontecendo a partir de 2012, quando o número de nascimentos superou o de mortes pela primeira vez em duas décadas. 

Como Sochi é uma das “meninas dos olhos” do presidente russo, a alta presença de crianças no balneário deve enchê-lo de orgulho, embora também seja necessário deixar os números de lado e realizar uma observação com a qual até mesmo o mais desatento visitante concordaria: as crianças correm para o sol no verão russo. 

 

É isso que se percebe pela proliferação delas pelas ruas de Sochi. E com um perfil bem parecido: olhos azuis e bochechas vermelhas, além de eventuais bonés nas cabeças dos meninos e tranças nos longos e loiros cabelos das garotinhas, quase sempre acompanhadas por jovens casais. 

Os mais pequenos, com até três anos, são empurrados em carrinhos de bebê. Já os maiores caminham pelas calçadas saltitantes, com boias gigantes, que mais se parecem com pneus de caminhão - e, em alguns casos, estampam as marcas deles. E todos seguem o caminho ao Mar Negro. 

A “capital do verão russo” - esse é apenas um dos apelidos estampados nas camisetas vendidas em lojinhas caça-turistas de Sochi - tem pouco mais de 400 mil habitantes.

Mas as estimativas são de que essa população dobre entre maio e setembro, período que engloba parte da primavera e do verão no país. E avalia-se que Sochi receba 4 milhões de visitantes anualmente, a imensa maioria formada por russos, a não ser, é claro, em período de Olimpíada de Inverno e, principalmente, Copa do Mundo. 

Nesses quatro meses, a invasão das crianças dá um novo colorido a Sochi. Elas brincam com as pedras à beira do Mar Negro - não há areia, como tradicionalmente se vê nas praias brasileiras. E aproveitam a calmaria do mar, que mais lembra a de um rio, para se divertir com suas boias, enquanto seus pais os observam dourando - ou, na maioria dos casos, avermelhando - a pele. E depois ainda se lambuzam com os deliciosos sorvetes locais. 

É uma invasão nunca silenciosa, pois crianças nunca ficam quietas e, nesse caso, falam um dialeto incompreensível para os jornalistas brasileiros, mas também pacífica. E daquelas que faz outro apelido que tenta se emplacar em Sochi - “terra do esporte” - ficar em segundo plano, pois nenhuma delas está preocupada com os históricos gols de Cristiano Ronaldo e Edinson Cavani que saíram na cidade nas últimas semanas. 

Sochi já recebeu uma edição da Olimpíada de Inverno, há quatro anos, e agora também está sediando jogos da Copa do Mundo. Mas, em todo verão, traz aquilo que é mais bem-vindo e nos deixa com saudades dos nossos: a pureza dos pequenos. Dá para até fazer mais uma camiseta: “Sochi, a terra das crianças”. 

*LEANDRO SILVEIRA É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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