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A série FUTEBOL EM DEBATE vai debater a qualidade do futebol brasileiro Arte/Estadão

Podcast: personalidades do esporte analisam a situação do futebol no Brasil

FUTEBOL EM DEBATE: O 'Estado' ouve grandes nomes do futebol e treinadores renomados, que mostram o que pensam e o que precisa mudar no jogo praticado nesse momento no País. Há atletas ruins e técnicos previsíveis, por exemplo. Ouça!

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 18h57
Atualizado 17 de maio de 2019 | 17h57

O futebol brasileiro tem sido alvo de constantes críticas, em razão do baixo nível técnico da maioria das partidas, sejam elas de estaduais ou torneios nacionais. A queda de qualidade reflete também na seleção brasileira, que não tem mais agradado e encantando o mundo como fez no passado e os resultados também não convencem. 

Em razão disso, o Estado lançou o FUTEBOL EM DEBATE, uma série de 10 capítulos feita em Podcast, mas que pode também ser lida neste portal, em que grandes nomes do futebol brasileiro dão sua opinião sobre quais os motivos para a crise do futebol no País. Ouça o que pensa alguns dos maiores ex-jogadores do Brasil, como Paulo Roberto Falcão, Roberto RivellinoEmerson Leão, Muricy RamalhoCarlos Alberto Parreira, Alex e César Sampaio. Grandes nomes do futebol nacional apontam quais são os maiores problemas e possíveis soluções. 

Temas polêmicos, como a dependência da seleção brasileira em Neymar, a negociação de jovens talentos para clubes do exterior, a diferença econômica entre os times do Brasil e da Europa e ausência de grandes jogos no País pentacampeão mundial foram alguns dos temas abordados durante as entrevistas. 

 

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Capítulo 1 - Falcão: 'Precisamos adaptar o nosso estilo de jogo'

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ícone da seleção diz que o futebol brasileiro perdeu várias de suas características e tem de mudar a mentalidade para voltar a ser vencedor

Entrevista com

Paulo Roberto Falcão

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 04h30

Ouça o podcast de Paulo Roberto Falcão e confira a entrevista, por escrito, logo abaixo

O futebol brasileiro passa por uma fase de pouco brilho. A ousadia, a criatividade, o poder de improviso e outras características que encantaram o mundo são cada vez mais raros. Ao mesmo tempo, títulos internacionais de clubes e seleções rarearam. Coincidência? Consequência? O Estado inicia nesta quarta-feira uma série para debater a qualidade do futebol brasileiro, e neste CAPÍTULO 1 entrevista um ex-jogador, e atualmente treinador, que é símbolo do futebol bem jogado, Paulo Roberto Falcão.

A ideia é oferecer ao leitor toda quarta-feira, uma entrevista com algumas dessas personalidades para explicar a atual situação e condição do futebol brasileiro. A reportagem também contará com um podcast de 20 minutos, em média, da conversa com o entrevistado. No CAPÍTULO 2, teremos Roberto Rivellino

O futebol brasileiro perdeu a identidade?

Quando uma pessoa perde a identidade, o que acontece? Ela muda. No futebol não tem uma coisa só. É que nós, no Brasil, sempre tivemos muita qualidade no jogador. Não nos últimos anos. Mas a gente sempre primou por isso. Antigamente, você tinha times com três, quatro craques. Hoje você não consegue ter isso, é mais difícil. A Europa tem porque tem condições de investir. Esse é um dos aspectos. Outro aspecto: não tem mais campo de várzea. Outro: porque não temos mais a qualidade que tínhamos, precisamos de uma adaptação (no estilo de jogo).

Nesse aspecto de adaptação, qual a importância do treinador?

O time hoje depende muito da qualidade do treinador, precisa muito dele. Mas o treinador precisa de apoio, de respaldo, que normalmente não é dado porque se acha que tem de ganhar. Claro que tem de ganhar, mas isso vem em consequência do trabalho.

Hoje, os jogadores estão indo cada vez mais cedo para a Europa. Acaba interrompendo o ciclo de formação dentro das características do futebol brasileiro. Isso também atrapalha?

É, mas às vezes, dependendo da função e das características dos jogadores, lá você tem muito ganho de qualidade na (parte) tática. Muita gente diz que tem de deixar o jogador mais à vontade, está se prendendo muito à parte tática. Tem que ver se isso de deixar o jogador fazer essa jogada individual... Será que nós temos jogadores para fazer isso? Ou é muito mais uma vontade nossa de querer que o jogador faça? Primeiro que não necessariamente você tem que ter um time com grandes dribladores.

Então, o drible não é necessariamente um recurso que resolve no futebol atual...

Exato. Se pegar o Barcelona do Guardiola, tinha dois dribladores, o Messi e o Ronaldinho. O resto, ninguém driblava. O Internacional de 1976 (bicampeão brasileiro) não tinha nenhum grande driblador. Lula, um pouco. Mas não tinha jogador do um contra um. E você ganhava. Aí conta conjunto, a qualidade, a maneira como você organiza o time em cima das características do jogador que você tem. É claro que se eu tenho um jogador com capacidade de dar um drible, eu tenho que estimular isso.

Se não tiver...

Eu acho que o campo de futebol é assim dividido: tem uma parte que, se não tiver zagueiro de qualidade para sair jogando, tem de tirar. Há risco de tomar um gol. Mas acho que o grande segredo é você ter zagueiro que jogue, para não dar chutão. No quadrado do meio do campo, que começa na intermediária de um campo e vai até a intermediária do campo do adversário, aí bola tem de ser um, dois. Tem de jogar, fazer a bola andar, não pode ser lento. Quando você chega perto da área, se tem esse jogador com qualidade no drible, não tem tática. É improviso. Mas eu tenho de ter jogador que faça isso, não adianta força se os caras não têm (essa característica).

O Brasil tem hoje um grande driblador, o Neymar. No passado, era mais comum. É consequência da mudança do futebol, até em nível mundial?

O Messi é um grande driblador. O Cristiano Ronaldo menos. Mas os dois são eficientes demais. O Chelsea tem o Hazard, que atropela e passa, tem a jogada individual. O De Bruyne, que para mim é o melhor jogador do City, não é de dar drible. Então, não é importante o drible na minha avaliação. Se você tiver o jogador que tem essa capacidade, perto da área, vai para cima. Se não tem, não adianta você forçar. Você não precisa de driblador para ser campeão. Tem de ter um time.

Mas tem uma maneira de jogar que você considera ideal?

O fundamental é você arrumar um esquema de jogo que se adapte ao jogador que você tem. Certa vez dei uma palestra para os treinadores, a convite da CBF, eu coloquei dois assuntos em discussão: posse de bola e compactação. A posse de bola, para valer, tem de ser dentro do teu campo, do teu goleiro. Se você der o chutão, não tem posse de bola. Tem de sair desde o goleiro e para isso tem de ter um goleiro que saiba jogar com o pé. Mas você p5de eventualmente ganhar sem ter saída de bola qualificada. Dou o exemplo do Leicester (campeão inglês da temporada 2016/2016). O Cláudio Ranieri colocava o time para frente, era muito chutão e velocidade. Então dá para ganhar assim também. Mas o ideal, na minha avaliação, é você ter um time que jogue.

Temos poucos grandes cobradores de falta. E porque se treina pouco?

Acho que o cobrador de falta é uma raridade. Nos times que treino, eu não me preocupo muito com a cobrança de falta direta. A não ser que eu tenha um exímio batedor. É muito difícil de achar. Eu gosto de trabalhar as jogadas, de surpreender. Eu tenho de ter jogador no meu time com aproveitamento de 65, 70% , mas não tenho não adianta ficar chutando bola na barreira. Eu tenho de criar situações para que eu possa usar a bola parada a meu favor com uma jogada inventada, trabalhada. Mas mesmo que eu tenho um grande batedor eu gosto de surpreender com uma jogada diferente.

Não dá para formar um batedor já no futebol profissional?

É difícil. Teoricamente, quando o jogador sai da categoria de base, ele tem de estar pronto para o profissional. Mas não chegam prontos. Não deveriam chegar com defeitos, mas chegam às vezes com defeito que o treinador de cima tem de corrigir. E às vezes não tem tempo, porque tem muito jogo. E você tem de preservar o garoto. O cara que chega em cima, teoricamente, tem de bater com uma perna bem, a outra não pode ser tão ruim, tem de saber cabecear. Só que não se chega em cima assim pronto.

Na sua época o jogador saía da base mais bem formado do que atualmente?

Talvez porque na época era muito difícil subir um garoto com 18 e entrar no time principal. Só se ele fosse muito bom. Hoje, muitas vezes o garoto de 17 é titular. Por que era difícil? Porque o time titular era bom. O garoto, por melhor que fosse, não conseguia, porque em cima tinha esses três, quatro craques. Então tú não botavas o guri. Tinha de esperar 19, 20, para estourar a idade e subia. Não tinha pressa de botar, porque em cima tinha jogadores melhores do que ele. Hoje, você às vezes atropela.

O futebol brasileiro perdeu suas características?

Qual é a característica que nós temos. A qualidade, a técnica. Isso nós não temos mais como antes. Isso pesa, a nossa qualidade sempre foi alta. Quantas vezes, numa peladinha de rua, te chamava a atenção aquele que botou a bola no calcanhar, no peito. Porque a gente tinha os olhos para isso... Nós tivemos uma campanha do Sul-Americano (sub-20) muito abaixo. Aliás, a gente resume tudo aí: as seleções, sub 20, sub 18, sempre foram referências. Hoje, o Brasil está fora do Mundial.

Depois do 7 a 1, falou-se que era preciso mudar muita coisa no futebol brasileiro. Mudou?

Falou-se isso quando o Santos perdeu para o Barcelona (4 a 0, em 2011) e não se fez nada. Em 2014, e não se fez nada. Está se falando, mas não se faz nada. A gente sabe muitas coisas, mas não consegue resolver. Mas tem de ir atrás, não é que você vai ter mais qualidade e vai ganhar (automaticamente). Mas a perda de qualidade é geral no País. O futebol é reflexo disso, ele meio que imita a vida. Tem duas maneiras de montar um time: fazer um esquema com base no que você tem na mão, que é o mais comum, porque os times não têm dinheiro, ou você diz: eu vou jogar assim. Aí o presidente que tem dinheiro vai e busca jogadores para jogar como o treinador quer. Isso é mais raro, são mais os ingleses, os caras que têm dinheiro e investem horrores, mas o mais comum é você adaptar o teu time aos jogadores que tem.

O Brasil tem uma boa geração? Dá para formar uma boa seleção para 2022?

Quando a gente fala de favoritos ao título de uma Copa, vamos dizer de 2030, normalmente se aponta Brasil, Argentina, Itália e Alemanha. Excepcionalmente não vai ter uma Itália, como aconteceu agora. Mas esses quatro você banca. Por melhor que seja hoje a Espanha tu não bancas a Espanha daqui a 10 anos. Nem a Bélgica. Porque é mais sazonal. Esses quatro países estão ali quase sempre. Isso é fato. Então acho que sempre vai fazer time bom. Ganhar, aí é diferente. Você precisa mais coisa, não só ser favorito.

Os técnicos reclamam que não têm tempo de armar uma grande seleção...

Eu acho que você tem pouco tempo porque tem quatro ou cinco dias (para treinar). Eu acho que, numa convocação, um treinador de seleção brasileira, por não ter tempo, tem de ser selecionador. Treinador ele vai ser quando tiver tempo. O que é selecionar? É você casar as características dos jogadores que possam dar certo sem tantos treinos. Jogadores que se conheçam. Não adianta trazer um zagueiro que joga no Brasil e outro na Europa. Só se eles se conhecem. Isso é  para se reunir terça para jogar domingo, eliminatória. Tem de selecionar características porque vai te ajudar no pouco tempo de treinamento que você vai ter. Treinar você vai quando tiver 20 dias para a Copa América, 25 dias para a Copa do Mundo.

Nessa mesmice do futebol brasileiro, ter um Sampaoli ajuda?

Eu sou contra reserva de mercado. Tem de valer a competência. Ele chegou, está trabalhando, tendo bons resultados. Tem de dar tempo. Acho bom esse tipo de trabalho. Uma pena que os brasileiros não possam fazer isso em outros lugares. Não temos nenhum brasileiro trabalhando fora. Eu não sei responder por quê. Falam que é a língua. Não é a língua. O Ancelotti trabalhou na Inglaterra em falar inglês, foi falar depois. Acho que tudo que pode contribuir é importante. Esse diálogo com treinadores de fora, tu sempre consegue passar e aprender alguma coisa. É bom você saber até para não se fechar... Eu falo de tática, de treinamento, de intensidade de treino, de metodologia, de um modo geral de como eles trabalham. E tem de tirar o chapéu para eles, porque são sábios.

Em que a gestão do futebol brasileiro pode ser melhorada?

Não tem uma coisa só. Os próprios clubes muitas vezes aceitam esse calendário. Os times que estão na Libertadores, eles começam a pré-temporada em janeiro, hoje em dia muitos vão para os Estados Unidos, não fazem pré-temporada adequada porque é jogo em cima de jogo. Aí começa o Campeonato Estadual, em seguida tem a Libertadores, começa a ter tanta competição que é difícil não ter desgaste do jogador. Nós temos muitos jogos. E muitas vezes os clubes são coniventes com isso.

A base é bem tratada no Brasil?

Não tenho conhecimento de todas as bases, mas vejo muita gente dizer que os times tinham de ter uma base melhor. Outro problema que para mim é importante: a base não te elege presidente para os próximos dois anos, quem tem elege é o time de cima. A base tinha de ser muito melhor tratada. Com bons profissionais, que não tenham objetivo, ambição de chegar ao profissional. O objetivo é formar jogadores, e formar homens. . Ai tu tem de ter o cuidado de ter gente na base que possa administrar para ensinar até mesmo o jogador para dar entrevista, criar escola para o jogador estudar, dar condições para que ele possa administrar o que ele vai ganhar no futebol, que ele tenha capacidade de saber que a vida é um pouquinho diferente do sonho de só jogar futebol. A base é fundamental para você ter um crescimento profissional.

Treinador é uma função solitária?

Embora todo mundo goste de opinar, cai tudo na mão do treinador, acho uma grande injustiça. Acho que sempre quem ganha são os jogadores, tu tem de orientar. Eu sempre digo a eles: se vocês fizeram nos jogos o que eu estou pedindo, e perder a culpa é minha. Mas se vocês inventaram coisas, não é. E todo mundo entende. Mas é legal, eu gosto, é adrenalina, mas tem de conviver com aquilo que eu chamo de periférico. O arbitro, o torcedor, a imprensa, isso você não tem controle. Nosso controle é em cima do nosso time, do treinamento, alimentação, do descanso, do trabalho físico.

O que falta para que o Neymar seja o que todos esperam dele, e que talvez ele mesmo espere?

Eu acho o Neymar fantástico, um talento raro. O Neymar tem a coisa principal, que é o talento. Eu acho que perdeu uma grande chance na Copa do Mundo. Volta no Neymar do Santos. As entrevistas dele eram sempre felizes, sorridentes. Ele sempre foi um guri alegre, simpático. Deixou de ser isso. Está sempre muito sério, às vezes bravo com alguém. Algumas vezes com razão, outras não. Mas ele não é aquele Neymar do sorriso, da simpatia. Se ele mantivesse isso, com o futebol que ele joga, ele seria o jogador mais simpático do mundo. Hoje ele é um dos mais antipáticos, por causa disso. 

Ele é muito criticado por suas atitudes...

Ele tem aqui um cara que gosta dele, mas alguém que está do lado dele tem de dizer: Neymar, aquela bola que você machucou tu demorou a soltar. O cara deu uma chegada, toca e sai, ele tomou a primeira, a segunda e a terceira. Lá no meio do campo não foi nem perto da área para cavar uma falta. Essas coisas, ele vai ter de amadurecer. O dia em que ele se der conta, até porque ele não é uma fortaleza física, que pode receber, partir, tocar um, dois e receber na frente, o futebol dele vai crescer muito.

A Copa de 2022 pode ser a Copa do Neymar?

Ele tem tudo para ser um jogador extraordinário na próxima Copa, desde que entenda isso. E deve ter gente que diz isso para ele. Agora se dizer que o que ele fizer está tudo certo.;.. Torço para ele porque é uma esperança, dá gosto de vê-lo jogar, mas ele se perde um pouquinho nessas horas. Você tem de ter a seu lado pessoas que te digam a real.

 

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Capítulo 2 - Rivellino: 'O garoto não joga mais com alegria'

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ex-jogador de Corinthians e Fluminense e campeão do Mundo em 70, craque lamenta a crise técnica do futebol no País

Entrevista com

Roberto Rivellino

Leandro Silveira, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 09h00

Ouça o podcast de Roberto Rivellino e confira a entrevista, por escrito, logo abaixo

O futebol brasileiro está em crise. Sem vencer uma Copa do Mundo desde 2002 e ainda carregando o peso da derrota por 7 a 1 para a Alemanha em 2014, também acumula fracassos nas divisões de base, como nas recentes campanhas nos Sul-Americanos Sub-17 e Sub-20. Nesta quarta-feira, o Estado prossegue com a série para debater a qualidade do futebol brasileiro, e neste capítulo 2 entrevista Roberto Rivellino, campeão mundial em 1970, craque de Corinthians e Fluminense e um dos símbolos dos melhores momentos da história do futebol nacional (para ver o Capítulo 1, com Paulo Roberto Falcão, confira aqui).

Para ele, o principal problema está na formação e captação dos garotos nas divisões de base. A entrevista também pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo. O conteúdo será publicado no canal Estadão Esporte Clube. Confira a entrevista de Rivellino. No capírtulo 3, o Estado ouve o ex-goleiro Emerson Leão

Por que o futebol brasileiro está em crise?

Todo mundo fala que evoluiu taticamente, mas o problema do futebol brasileiro é de técnica, da qualidade dos jogadores. Está muito mal. Na minha época não tinha sub-8, sub-9, mas apenas infantil e juvenil. A gente jogava bola no espaço de uma rua e era feliz. Por isso, um problema crucial é a base. O treinador do sub-8 já tem de ganhar torneios, o propósito é esse. Você pega um garoto e dá essa obrigação a ele, então ele não joga com alegria e faz um jogo mecanizado.

O futebol brasileiro, então, perdeu a sua essência?

Perdeu o DNA. Sempre fomos ofensivos. O Santos tomava três gols e fazia cinco. Perdemos a qualidade, o driblador, que não existe mais, o camisa 9 não existe mais, está jogando pelas laterais do campo. O futebol ficou muito sem graça. Você faz o gol, não pode vibrar porque está ofendendo alguém. Se driblar, está menosprezando o adversário. E ainda tem a torcida única (nos clássicos paulistas).

A impressão é que muitos jogadores da base sobem ao profissional sem os fundamentos básicos. Por que isso acontece?

A escolha é errada. Eu nasci com o dom de jogar bola. Aperfeiçoar é uma coisa, você tem deficiências e trabalha muito isso. A captação da qualidade é o problema. Hoje, parece que todo mundo pode ser jogador, basta correr e destruir. Quero ver ser diferente. Na minha época, quem falava que jogava em várias posições, era dispensado. A parte física, você prepara um garoto em dois meses. A seleção sub-20 (que disputou o Sul-Americano no início do ano) foi um absurdo, não vi um garoto diferente. A base precisa mudar o conceito, educar o driblador, que parece ser um jogador que não tem mais nos times. A qualidade é tirada do garoto, que fica bitolado como uma máquina em um estilo de jogo.

Faltam ex-jogadores trabalhando na base?

Não tenho nada contra ninguém, mas é preciso entender qual é a essência do nosso futebol. Deixar um pouco de lado a estatística, deixar de pensar que o jogador precisa ter 1,90m de altura. Hoje, o jogador corre muito, mas não produz nada. O que você precisa na base são pessoas que mudem o conceito, buscando qualidade. Tem muito moleque para trabalhar isso, mas também precisa ser uma política adotada pelos presidentes dos clubes.

Por que as seleções de base do Brasil chegaram ao fundo do poço?

O problema está na captação da qualidade. Se você tem qualidade ofensiva, o nosso DNA, você pode correr riscos de levar um ou dois gols, porque vai fazer quatro. Mas se você não tem isso, o jogo fica equilibrado. Na minha época, a gente ganhava da Venezuela jogando de costas. A seleção, antes, tinha os 22 melhores jogadores brasileiros. Hoje, se chama os que são melhores taticamente. O futebol passou a ficar errado quando o treinador se tornou mais importante do que o jogador.

A saída dos jogadores muito cedo para a Europa atrapalha na formação deles?

É ruim. Na minha época, não havia esse mercado nervoso. Imagine se fosse assim na época do Pelé? Ele já estaria fora com 16 anos. Mas eu também não sou hipócrita, também sairia. Não há planejamento. Durmo pensando na Champions League, que poderia ter jogado. É a qualidade que ganha, o mais competente. É um espetáculo. Claro que seria bom ter Neymar e Vinicius Junior no Brasil, mas o maior problema para mim é o ir e voltar rápido. Aqui está mais fácil jogar futebol. Veja o exemplo do Gabigol, que mal jogou em Portugal, foi artilheiro aqui no ano passado no Santos e a Inter de Milão nem o chamou de volta porque lá não ia jogar. O Vizeu (está no Grêmio) também nem jogou.

O Neymar recebeu a braçadeira de capitão do Tite no ciclo para a Copa do Mundo de 2022, mas, de fato, ele tem perfil para liderar a seleção?

Ele não tem perfil de capitão, ao contrário do Thiago Silva e do Miranda. O Neymar mudou os conceitos dele, está mais preocupado com a vida fora de campo. O foco dele, para ser o melhor do mundo, mudou, parece que não há mais interesse. Como tem se portado, acho que será difícil ser o melhor do mundo porque a vaidade fala mais alto. Infelizmente, porque Deus deu um talento grande para ele. Se ele só jogasse futebol, penso que seria o melhor do mundo. Mas, às vezes, ele faz uma partida maravilhosa, com três gols, e aí faz um gesto que fica mais falado. Hoje, quando se fala do Neymar, as pessoas esquecem o que fez, o chamam de cai-cai. Ninguém mais fala da qualidade do futebol dele, e ele tem muita. Ele teve uma contusão séria, recebeu a liberação do clube para vir ao Brasil e aí se expôs de um modo que não há necessidade. Você não vê Cristiano Ronaldo e Messi fazendo isso. Eles têm uma vida focada no futebol. Se eles fazem bagunça, é bem feita.

Como você avalia o trabalho do Tite à frente da seleção brasileira?

No começo, bem. Mas o Tite não teve humildade para ter um plano B na Copa. Ele também insistiu com o Willian fora de posição. Quando desrespeitou a ordem, no jogo contra o México, fez a sua melhor partida. E parece que demorou 45 minutos para o Tite entender o time da Bélgica. Ficou parecendo que o Tite, que vinha fazendo um trabalho consistente, quis puxar a glória para ele, como se a seleção só fosse campeã nas mãos dele. Ele tem de ficar, mas precisa mudar conceitos e jogadores.

Faltou uma reformulação maior na seleção após a Copa do Mundo?

Existe uma obrigação, e ele quer ganhar a Copa América. Ele está trazendo jogadores para isso, mas se forem nomes que não vão para a Copa em 2022, é melhor o Tite arriscar. A crônica e o povo precisam entender isso, que logo teremos Eliminatórias. Mas será que ele vai arriscar ou vai pensar na Copa só mais na frente? Há posições complicadas também. Hoje, não temos um lateral-direito e ele precisou recorrer ao Daniel Alves.

A demora na reformulação da seleção pode afetar a preparação para a Copa do Mundo?

Não tem trabalho, o objetivo é ganhar a Copa América, ainda mais sendo no Brasil. Se perder a Copa América, o Tite sabe que vão pedir a saída dele. Então, ele se agarra aos nomes que têm confiança para dar o retorno. E, devagarzinho, vai reformulando e mexendo no time. É também difícil ter a certeza se alguns novatos vão dar certo na seleção. 

Há a avaliação de que existe uma falta de identificação do torcedor com a seleção. Isso se dá porque o jogador sai muito cedo do País ou porque a equipe praticamente não joga mais no Brasil?

Há o interesse financeiro. Se você analisar, 90% dos jogadores da seleção estão lá fora. Termina o jogo, todo mundo vai embora. Antigamente, era diferente. Jogávamos aqui. Havia uma identidade maior por isso. Antes, se faziam três seleções de qualidade. Hoje, você monta uma e ainda discute alguns atletas dela. Se o nível no País fosse alto, o Tite chamaria mais jogadores que atuam no Brasil. Hoje, só tem o Everton, é muito pouco. O nosso futebol está muito pobre.

Até que ponto a gestão e o calendário provocam danos para o futebol brasileiro?

Antes, jogávamos um campeonato só, mesmo que fossem em jogos de quarta e domingo. Hoje, é um absurdo, com muitas competições. A Copa do Brasil é mais valiosa financeiramente do que o Campeonato Brasileiro, o nosso principal torneio. Com isso, muitos clubes deixam o Brasileirão de lado, pensando financeiramente. Acho que devia acabar com a Copa do Brasil, tirar os times da Copa Sul-Americana para valorizar o Campeonato Brasileiro, deixá-lo mais forte.

Por que ex-jogadores não estão tão envolvidos na gestão do futebol nacional?

O Leonardo foi trabalhar com futebol, mas lá fora, porque é mais organizado. O Raí está sofrendo no São Paulo, até tomando decisões erradas, mas não sei se ele tem o poder. Lá fora, você tem o poder nas mãos, aqui é mais difícil, tem outros valores, uma ciumeira tremenda. Também é preciso ter vocação e gostar. Eu tive uma experiência no Corinthians e não gostei, nunca mais voltaria. Foi uma decepção. Os bastidores são muito difíceis. Aqui, você não vai ter todo o poder e até perde a idolatria.

O futebol brasileiro está muito previsível?

Sim, 99% dos treinadores jogam de uma mesma maneira, só tendo dois ou três que têm uma proposta de jogo diferente, como o Sampaoli (no Santos), que se propõe a buscar o jogo quando tem a bola. Tem o Renato Gaúcho (no Grêmio), que para mim é o maior treinador do Brasil hoje, pela maneira como propõe o jogo. E tem um que é muito questionado, tem uma proposta muito diferente que é o Fernando Diniz. Eu adoro. No modo geral, a preocupação é jogar pelo resultado, e as torcidas estão se acostumando, como se 1 a 0 fosse goleada. O Corinthians foi campeão em 2017 ganhando assim, empatando e todo mundo ficou feliz. Ganhar é importante, mas nosso DNA sempre foi o futebol ofensivo. Fomos pentacampeões com futebol agressivo, qualidade e jogadores que desequilibravam. A preocupação hoje é defensiva, com o papo de dar a bola ao adversário. E a bola é a coisa mais preciosa que existe no jogo.

Por que os clubes brasileiros têm enfrentado dificuldades nos torneios continentais?

Está tudo muito igual. Não é só no Brasil. O futebol argentino também está muito fraco. Hoje, é uma dificuldade ganhar de um time venezuelano. Antigamente, você era melhor e ganhava. Hoje, você não tem jogador que quebra a linha. A gente não consegue nem apontar qual é o grande jogador sul-americano. A obrigação de ganhar não se dá mais pela qualidade, mas pelo investimento, que são os casos de Palmeiras e Flamengo no Brasil.

Faltam técnicos com convicção no futebol brasileiro, por causa do medo de demissão?

Não tem trabalho, você tem de ganhar. Mas acho que o treinador, que é um coitado, deveria ter mais convicção. Pensar que, se você vai embora de qualquer jeito, como fizeram com o Aguirre no São Paulo, então coloque as suas convicções em campo. Teríamos um futebol mais bonito, mais ofensivo. Estou cansado de ver futebol defensivo.

A chegada de profissionais estrangeiros ao futebol brasileiro como o Sampaoli pode ser interessante?

Ele foi o único diferente que chegou e me agradou. Ele tem proposta. É dinâmico, busca o jogo, tenta ficar com a bola. Gosto do trabalho dele, pode tomar de 5, como foi contra o Ituano, mas não muda o plano. Os conceitos não mudam e isso eu gosto muito no trabalho dele.

Você já disse que o Renato Gaúcho é o melhor técnico do futebol brasileiro. Por que essa avaliação?

Ele me agrada porque deixa o jogador alegre, jogando com liberdade para fazer o que sabe. Respeita a característica do jogador e gosta do futebol bem jogado. É claro que tem preocupações defensivas, mas quer jogar com a bola. Conquistou muito, mesmo perdendo jogadores no Grêmio, e jogando bem.

Falta personalidade ao jogador brasileiro hoje?

Acho que é preciso falar e isso não é desrespeito. Quando o Zagallo me falou para jogar na ponta-esquerda, eu disse inicialmente que não ia, porque iria atrapalhar o time. O Willian também deveria ter feito isso com o Tite. O treinador manda, mas também precisa escutar. Falta um diálogo aberto, falta o jogador mostrar que não rende em determinada função. Lembro que, na seleção, o Mano Menezes colocou o Hernanes na ponta-direita. Não jogou bem e nunca mais voltou para o time.

O Vinicius Junior pode se tornar um craque mundial?

É um bom jogador. Tem qualidade, é rápido, mas ainda tem de aprender a passar, a chutar. Ele tem dificuldade para finalizar. É novo, mas não sei se vai conseguir melhorar. Então, não sei se é diferenciado. O último diferenciado que surgiu foi o Neymar e isso já faz dez anos.

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Capítulo 3 - Emerson Leão: ‘O Brasil precisa recuperar sua identidade’

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ex-goleiro do Palmeiras, Corinthians e da seleção brasileira diz que um dos problemas está em tentar reproduzir o que é feito na Europa em vez de valorizar o futebol do País

Entrevista com

Emerson Leão, ex-jogador

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2019 | 09h01

O Brasil precisa voltar a ser Brasil para recuperar o caminho vitorioso no futebol, de suas conquistas. Para o ex-goleiro e ex-técnico Emerson Leão, a seleção brasileira e o futebol nacional caíram de qualidade após passar a copiar o estilo e o modelo estrangeiros em vez de priorizar as características originais. Nesta quarta-feira, o Estado publica mais um capítulo da série Futebol em Debate, para analisar a qualidade do futebol brasileiro.

Neste capítulo 3, o Estado entrevista o campeão mundial em 1970, ídolo do Palmeiras e técnico por mais de 20 anos. Para Leão, um dos problema da queda de rendimento está em tentar reproduzir o que é feito na Europa em vez de valorizar o futebol alegre e bonito que o País sempre teve. O ex-goleiro também critica o comportamento de Neymar, considerado por ele um para-raio de problemas.

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo é publicado no canal Estadão Esporte Clube. O Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e téncicos. No capítulo 1 desta séria, a entrevista foi com Paulo Roberto Falcão. O capítulo 2 trouxe o que pensa Roberto Rivellino. Agora é a vez de Emerson Leão.

Neste ano tem Copa América. Na sua opinião, depois de o Brasil não ter ganho mais uma vez a Copa do Mundo, é uma competição que ganhou um outro status, um outro peso?

Sinceramente, na minha maneira de apreciar, não. Porque já tivemos a surpresa de sermos campeões de outras Copas e na hora dos "vamos ver", da Copa que nos interessa, e nós necessitamos, que é a Copa do Mundo, a gente acaba fazendo vexame. Acho que para nós recuperarmos a hegemonia, o moral, a dignidade de tudo do nosso futebol, vai demorar um pouco. E esse pouco representa mais de décadas, porque nós precisamos ganhar mais umas duas Copas.

Por que o Brasil está agora há quase 20 anos sem ganhar uma Copa do Mundo?

Porque não mereceu. É simples de entender. Acho que as coisas, como a fatalidade de um pênalti, pode decidir uma Copa do Mundo. Mas você ficar 20 anos sem ela, não é fatalidade. É realidade. E essa realidade passa por "n" motivos que está ocorrendo aqui no Brasil. Não só dentro do futebol, como fora dele.

Você comentou que o Brasil precisaria ganhar duas Copas talvez para se recuperar. Por que o Brasil perdeu a sua posição?

Estou dizendo que nós perdemos as nossas identidades. A nossa identidade era ter um futebol alegre, um futebol vistoso, que se tornava competitivo e vitorioso. Ou seja, nós olhávamos para nossas origens. Isso não ocorre mais. Nós somos cópias de outras coisas e não conseguimos. Segundo, os nossos espelhos eram as grandes equipes. Agora, não. Hoje você a televisão, jogo de manhã, de tarde, de noite, de todos os países. As nossas lojas vendem mais camisas de times europeus, as nossas sementes deixaram de ser sementes reproduzidas dentro de nosso solo, vão ser reproduzidas na Europa. O dinheiro tomou conta.

Existiu ao seu ver algum ponto de virada em que o Brasil deixou de ter essa identidade?

O ponto de virada não começou. Veio crescendo sem nós notarmos. Eu acho que a nossa ambição financeira e por necessidade às vezes até do clubes, começaram a vender sua origem, sua base. Aqui não se forma mais quase ninguém. Um garoto de 12 anos já saiu do Brasil. Antigamente saíam os mais credenciados, acima de 25, 26 anos. Se nós tivessemos uma coordenação melhor, isso seria uma ajuda. Os jogadores viraram superstars, são intocáveis. Os treinadores têm cada vez mais dificuldade.

Jogador é mais folgado hoje?

Ele é só folgado. O Palmeiras tem um monte de jogadores bons e não estava dando conta do recado. O Felipão chegou. Só dele ficar no meio do campo, já melhora. Porque aquele que está fazendo as coisas lá fala: "Olha o homem lá, agora complicou".

Sente saudades do futebol?

Não sinto saudades. Quando você faz uma coisa com a intensidade do coração, você não sente saudades. Por quê? Porque você deixou um legado. Mas você não consegue desvincular. Eu fico satisfeito de ver novamente acontecendo uma mudança dos treinadores no futebol. Apesar de todo mundo falar: "o experiente virou velho, virou ultrapassado". Agora eles estão voltando todos porque os jovens, que não são experientes, não conseguiram ainda e espero que deem conta do recado. Porque são muito jovens. Então, os mais velhos voltaram a assumir.

Esse processo dos mais experientes reassumirem parece algo recente. Talvez o próprio título do Felipão do ano passado tenha sido um comprovante disso...

Não. Nós já temos o Mano (Menezes) algumas vezes, nosso treinador da seleção brasileira, que não é tão jovem...uma casta muito grande de quem aceitou retornar. Eu fico satisfeito com isso. Acho legal. Eles voltaram e voltaram com uma maneira diferente de trabalhar. Passaram a ser protetores do futebol brasileiro e dos treinadores jovens. Então, os dirigentes precisam entender que os mais velhos não são para derrubar os mais novos e sim para auxiliar os mais jovens.

Qual a sua avaliação sobre o trabalho do Tite?

Treinador de seleção brasileira não trabalha dentro do campo. Ele precisa ficar viajando, conversando com jogador, conversando com dirigente, vendo postura, arrumando amistoso. O Tite tem pouco tempo para trabalhar. O que precisamos entender é que precisamos convocar a seleção brasileira para trabalhar. Como? Nós temos de ficar no mínimo 30 dias trabalhando em treinamento, em decisões, em táticas. Agora, coitado do Tite. Eu passei por lá também. A gente passa viajando. O jogo já foi marcado e vendido lá para trás para uma empresa, uma patrocinadora.

O torcedor perdeu identificação com a seleção?

Sim. Antes a gente ficava sentado olhando para a televisão para ficarmos sabendo da convocação ou não. Hoje a coisa é diferente. Os nossos últimos craques, esquecem de jogar, mas querem ser o Brad Pitt, serem astros. Nós precisamos voltar para a nossa origem. Tem horas que voltar atrás é muito melhor do que seguir à frente errando.

Dos goleiros brasileiros atuais, tem algum que você gosta?

Essa pergunta estão me fazendo há mais de dez anos. Agora está na moda: goleiro tem de saber jogar com o pé. É lógico. Ele tem dois. Faz parte do corpo humano. Goleiro tem que pegar é bola. E antes de pegar a bola, para que ela não chegue tanto, você tem de ter comando. Através do comando, você tem uma hierarquia dentro do campo, para coordenar as coisas de trás. Vejo uma falta nisso nos goleiros também. Os goleiros nossos, os mais velhos são os melhores. O Fábio, do Cruzeiro, é regular há mais de dez anos, ele ganha títulos no Cruzeiro há mais de dez anos.

Por que o Neymar não chegou ainda ao posto de melhor do mundo?

Curto e grosso? Porque ele não mereceu. O dia em que ele merecer, sei lá se vai existir esse dia, porque a gente falava quando ele tinha 17 anos. Hoje ele tem 27. E não aconteceu nada. Só problema, sem solução. Então, vida que segue.

No Brasil o Neymar rende polêmica por ir ao Carnaval, frequentar festas. Na sua opinião a postura dele deveria ser melhor?

Ele vai para todo lugar. Não tem hierarquia. Acabou. Eu não gosto de falar dele, não. Não dá para falar que não é bom jogador. É bom jogador. Mas é problema, é um pára-raio. Ele alimenta essa pára-raio. Desagradabílissimo. Problema dele e dos treinadores dele.

O futebol brasileiro sente uma carência de centroavantes, de camisa 9, de matador...

Isso se chama volta ao passado. Ninguém quer jogar mais de centroavante, não. Os treinos hoje são todos em campo pequeno. Mas nós vamos jogar em campo grande, não em pequeno. Por isso quando aparece um cara mais ou menos que mete gol as pessoas se assustam, porque fica dentro da área. É porque ele é uma exceção. Goleador não precisa ser bom jogador, precisa ser goleador.

Sente orgulho de ver ex-jogadores seus virarem técnicos?

Eu acho que sinto muito mais orgulho, recompensa, pagamento, do coração, quando vejo um ex-atleta me elogiando. "O professor era chato, pegava no pé, mas devo a ele tudo o que eu aprendi". Isso é muito interessante, muito bom de se ouvir. Sinal que você fazia as coisas certas. Sobre ver muitos jogadores que foram meus atletas sendo treinador, isso é muito bom. Eu recebo muitos telefonemas deles.

A relação da imprensa com o futebol mudou bastante. Como isso impactou no esporte?

Eu trabalhei um ano agora em uma televisão, por prazer. Porque paga pouco para caramba. A imprensa mudou. Esse negócio de técnico esconder o treino, para quê? Isso eu nunca fiz na minha vida como treinador. Esconder o quê? Vamos jogar, vamos treinar, vamos substituir. Você faz uma coisa tão bem feita que o outro não consegue segurar.

Gosta da presença de estrangeiros?

Os ídolos brasileiros dos times são estrangeiros que foram para a Europa, não deram certo e voltaram. Aqui virou um Shangri-Lá financeiro. Todo mundo corre para cá agora. O Brasil é um país pobre, que paga como rico. A verdade é essa. Eu acho que tem cada empresário muito bom, porque coloca cada cara muito ruim dentro de grandes equipes. O jogador não é o bom, o bom é o empresário dele.

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Capítulo 4 - Dorival Junior: '40% dos atletas da Série A do Brasileirão deveriam atuar na Série B'

Para a série FUTEBOL EM DEBATE, o técnico diz que exportação em massa de atletas piora nível do futebol brasileiro

Entrevista com

Dorival Junior - técnico de futebol

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 09h00

A diminuição dos campos de várzea, a saída dos jogadores para a Europa e a pressão por resultados – nas categorias de base e no trabalho dos treinadores profissionais – ajudam a explicar a crise do futebol brasileiro. Essa é a visão do técnico Dorival Junior, quarto entrevistado na série especial Futebol em Debate, promovida pelo Estado. Neste capítulo, o treinador de 56 anos, hoje sem clube, aponta um fato da história das Copas que mudou a qualidade do futebol. “A queda da seleção brasileira em 1982 foi um desastre para o futebol mundial”. 

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo é publicado no canal Estadão Esporte Clube. O Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e técnicos. No capítulo 1 desta série, o entrevistado foi Paulo Roberto Falcão. O capítulo 2 trouxe a análise de Rivellino. No terceiro, do técnico Emerson Leão

Por que o futebol brasileiro está em crise?

São vários fatores que vem acontecendo há 10, 15 anos para cá e dificultam sobremaneira a construção das nossas equipes. Vou citar alguns dados. Não quero questionar ninguém nas minhas colocações. Estou apenas observando o que está acontecendo no futebol. O primeiro aspecto é a formação. Estamos tendo uma dificuldade grande em um momento de transição. O jogador brasileiro foi criado livre. Isso era desenvolvido nos campinhos de rua, nas ruas, em cima de paralelepípedo. Hoje, o garoto passa o dia com o computador nas mãos. E a mãe passa o dia brigando para ele sair de casa. Ao contrário do que acontecia anos atrás. Você entrava em casa às 10h da noite sujo de terra e de barro, pois estava jogando futebol. Isso acontecia no país todo.

Como essa liberdade influencia dentro de campo?

Totalmente. Essa liberdade que o jogador teve fez com que ele fosse diferente no mundo. As bolas tinham variados tamanhos. Você fazia bola de laranja, côco, meia. Aquilo dava uma destreza e uma sensibilidade para correr e para sair de situações de forma instintiva. Aquilo preparava para o mundo. Estou falando de maneira geral sobre o improviso, o inusitado, aquele sair de uma situação de aperto... O jogador encontrava isso no dia a dia. Ele ia para um clube profissional e continuava fazendo aquilo. Ele só tinha noção tática perto dos 20 anos. Você levava a alegria para dentro de campo. O tempo passou. Os europeus foram estudando o futebol brasileiro e se adaptaram. Nós fomos para lá e trouxemos parte tática, preparação física, trabalho. Nós exportamos o que era bom e o que era usado lá fora nós trouxemos e formamos nossos métodos de trabalho.

Houve uma inversão de papéis?

Deixamos de ser os jogadores que tinham aquela desenvoltura toda e passamos a ser jogadores com posicionamento e fortalecimento. Eram valorizados aqueles que tinham resistência e força. Os jogos se tornavam mais velozes e mais disputados. Estou falando de 30, 40 anos atrás.

Nós também passamos a vender mais jogadores...

Paralelamente, nós perdemos uma média de 1500 jogadores por ano no futebol brasileiro. São atletas de ponta e de todas as séries. Com isso, 40% dos jogadores dos clubes que atuam na Série A – me desculpem se ofendo alguém – deveriam jogar na Série B. E assim sucessivamente. Assim, 40% dos atletas da Série D talvez nem poderiam ser profissionais.

Do ponto de vista técnico?

Sim, tecnicamente falando. Uma perda de 1500 atletas por ano faz com que a reposição seja feita com garotos que não estão preparados para o futebol profissional. Mais um detalhe: o imediatismo por resultados nos clubes desde as categorias de base. O resultado da base deveria a formação do cidadão e do atleta. A cobrança já é absurda na base. Um garoto de sete ou oito anos é cobrado pelo pai para que seja campeão. O pai está prestando um desserviço para a formação desse garoto. E isso ninguém percebe. Isso vai se avolumando ano a ano. São todos esses fatores que pesam negativamente na formação dos atletas.

É um circulo vicioso?

Durante muitos anos, nós passamos “batidos” por essa situação. Os atletas foram formados rapidamente para gerarem lucros para os clubes, empresários e pais, uma cadeia que sempre viveu da formação desses garotos. Não se percebia o mal que estávamos fazendo para esse garoto e para o futebol brasileiro. Nós abrimos mão da qualidade e priorizamos a velocidade da formação, comprometendo gerações que poderiam ter trazido mais resultados.

Nós vivemos um momento semelhante de reflexão e discussão após a derrota da seleção brasileira para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 por 7 a 1. Mudou alguma coisa?

Não. Não mudou nada depois do 7 a 1 na Copa do Mundo. Continuamos com os mesmos problemas, as mesmas dificuldades. As pessoas não falam em prevenção e só cobram em resultados. Vemos coisas terríveis acontecendo no Rio de Janeiro. Isso acontece em todas as áreas profissionais, inclusive para o futebol, que deveria ser um entretenimento. Mas o nível de cobrança sobre o futebol é maior talvez do que as cobranças que fazemos para os homens que dirigem a saúde, educação e segurança do nosso País. Se tivéssemos o mesmo nível de cobrança do futebol em outras áreas, nós seríamos outro País.

Qual é a responsabilidade do treinador nesse processo?

Ela deveria ser maior do que é. Desde que fosse dado tempo para ele preparar, desenvolver, corrigir seu trabalho. Depois, ele seria avaliado se conseguiu atingir os resultados planejados. Não tem como fazer isso. Você é avaliado pelo resultado da quarta-feira e do domingo. Não dá para preparar nada. O treinador não faz um trabalho; ele gera resultados. Ele é um gerador de resultados. Se você não for um gerador de resultados, você não serve, você não presta e não é aquilo que o clube estava esperando. Dois disputarão a final. Um será o vencedor. O segundo colocado será o primeiro dos derrotados. Não há reconhecimento. A cobrança é feita em cima do que não foi realizado. Independentemente da qualidade do time, dos investimentos realizados, de ter perdido ou não jogadores. As pessoas só avaliam o resultado alcançado. Da forma como vemos o futebol, a partir do segundo colocado para baixo, todos estão correndo risco. Se não for o primeiro, já começa a ser questionado.

Qual a saída?

Precisamos da participação de todos, inclusive a imprensa, que não pode fazer a cobrança apenas em cima de resultados. Temos de começar a entender o futebol, ler melhor o futebol e analisar uma partida de outra maneira. Todas as áreas – treinadores, atletas, diretores, imprensa torcida – devem ver o futebol de outra forma. Precisamos de uma mudança geral.

Essas dificuldades internas influenciam no desempenho da seleção brasileira?

Não, não vejo isso. A Copa do Mundo é um torneio. Você chega com uma equipe altamente qualificada como a seleção alemã chegou e acaba eliminada na primeira fase. É um torneio de sete jogos no qual uma tarde infeliz te afasta de uma competição. Como no caso da seleção brasileira de 1982, uma das maiores equipes que eu vi na minha vida. As pessoas falam que não foi campeã, não tem valor. Eu vejo de outro lado. O futebol foi penalizado. Foi uma fatalidade para o futebol mundial. A partir daquele momento, o futebol mundial começou a ser visto de outra forma e começou a buscar outras formas de jogar.

Futebol mundial?

Exatamente. Aquilo que aconteceu ali penalizou o futebol mundial. Foi uma das maiores equipes que nós vimos. A campanha foi impressionante nos quatro anos antes. A seleção jogou diante de uma seleção que atravessou a primeira fase com três empates. Deus sabe lá como se classificou a seleção italiana! Ela acabou vencendo naquela tarde desastrosa para o futebol mundial. Foi um pecado que o futebol viveu. O Brasil não teve a oportunidade de ver Zico e Ademir da Guia ganharem um Campeonato Mundial. Foi uma pena o futebol não ter visto aquela seleção ter sido campeã. O futebol jogado no mundo seria outro.

Qual é a prioridade para revertermos esse quadro?

Temos de repensar e reavaliar e buscar alternativas. Tem muita gente que apaga as luzes. Eu gostaria de ver mais pessoas acendendo as luzes. Muitas pessoas criticam em todas as áreas, não só a imprensa, todas as áreas que estão envolvidas com o futebol. Essas pessoas apagam as luzes. Gostaria de ter mais pessoas acendessem luzes e que buscassem propostas, que vivenciassem o futebol de uma maneira diferente. Tem muita gente preocupada em encontrar um novo caminho, uma nova opção. Precisamos de mais gente pensando o futebol. O voleibol brasileiro foi lá fora para buscar algumas coisas e conseguiu adaptar sua forma de jogar, criando uma identidade própria. Nos últimos 20, 25 anos, ele está sempre brigando pelos primeiros lugares. Foi uma mudança de postura no vôlei. No Brasil, aconteceu o inverso. Éramos o primeiro, mas não nos preocupamos em manter essa posição, nunca buscamos entender o que os europeus faziam para encontrar um novo caminho. Eles encontraram e passaram o futebol sul-americano. Hoje, nós estamos muito aquém do futebol europeu. Hoje, ele é o objetivo de todo profissional hoje e vem evoluindo ano a ano. O brasileiro se adapta e se refaz rapidamente. Mesmo que em pequenas doses, algumas coisas estão mudando. Elas poderão trazer resultados.

O que está mudando?

As pessoas estão se preocupando em conhecer o futebol mais a fundo, trabalhar e estudar um pouco mais. A gente não pode perder a essência do nosso jogo. Eu gostaria de ver as mudanças dentro da nossa capacidade de absorção, de poder buscar uma reinvenção com velocidade acima de tudo e dentro das qualidades que nós possuímos, que são maiores do que muitos imaginam.

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Capítulo 5 - Muricy Ramalho: 'Ficamos com a força dos europeus e eles com a nossa técnica'

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ex-técnico multicampeão no Brasil e atual comentarista vê falta de comando e incompetência dos dirigentes como um dos problemas do futebol brasileiro

Entrevista com

Muricy Ramalho, comentarista e ex-técnico

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2019 | 09h00

Um dos técnicos mais vencedores do futebol nacional nos últimos 20 anos - só o Brasileirão ele ganhou quatro vezes -, Muricy Ramalho vê com tristeza a situação do esporte no País e tenta encontrar motivos para a seleção brasileira ter perdido sua importância no cenário mundial. A incompetência dos dirigentes e a falta de comando dos treinadores estão entre os principais motivos da queda de qualidade no futebol do Brasil. Essa é a opinião do hoje comentarista, quinto entrevistado pelo Estado na série especial Futebol em Debate.

Como você avalia o futebol brasileiro?

A gente sempre analisa depois de uma Copa e nossa Copa foi um desastre. Claro que precisamos fazer uma reflexão e tentar mudar algumas coisas, mas isso demora. A CBF vai mudar para uma coisa boa. Chegou um cara jovem e correto, o Rogério Caboclo. Isso é fundamental. O resto tem que esperar um pouco. O que mais tem dificuldade no futebol brasileiro é que a maioria dos jogadores aparece, já vai embora, e a gente sente a falta da qualidade. Se a gente trouxesse todo mundo de volta, teríamos um dos melhores campeonatos do mundo, mas não é assim. O futebol brasileiro está parado, porque a gente revela, o cara vai embora e ficamos na mesma. 

Teve a tal mudança após o 7 x 1 como prometido?

Está se mudando aos poucos. Técnicos mais experientes estão parando e os jovens estão chegando. A renovação não é tão fácil. Tem que preparar uma geração para assumir o futebol e não se faz do dia para a noite. Os times não têm uma filosofia de trabalho e a maioria dos clubes são dirigidos por amadores. A nossa gestão não é boa e não era também na CBF, mas agora vai ficar boa. Estamos engatinhando. A gente vê muito discurso, palavras bonitas, mas dentro de campo, não tem novidade. 

Você gosta de técnicos estrangeiros no Brasil?

Eu vejo como técnico. Não quero saber se ele é japonês, argentino, para mim não interessa. Passaram técnicos estrangeiros e não deram certo, mas no Brasil a gente vai muito por onda. Depois da Copa, foi a onda dos estrangeiros, mas mandaram todo mundo embora e ninguém servia. Depois, foram os jovens, que também não deu muito certo. Agora estão voltando os experientes. Temos só um estrangeiro (Sampaoli), que é bom. Temos que olhar para a qualidade dele e não para onde ele nasceu.

O que está pior no Brasil: nível dos jogadores, dos dirigentes ou dos técnicos?

É um pouco de cada. Os clubes precisam se organizar, ter filosofia, trabalho e conceito de jogo. Por exemplo, eu passei um tempo no Barcelona e eles tem um conceito de jogo há mais de 20 anos. Não é o treinador que vai mudar isso. Aqui ninguém tem ideia nenhuma. Às vezes, contratam o técnico da moda, não dá certo e contratam outro. Tem que ter filosofia, para depois ir atrás de um técnico. No mundo todo não mudou muita coisa. 

Temos visto muitos times brasileiros na retranca. Isso é medo do treinador perder o jogo e o emprego?

Não tenho a menor dúvida. Tem a insegurança dos contratos. Eu, depois de anos, passei a ter multa, mas os mais jovens não tem essa segurança. O cara faz contrato de dois anos, é mandado embora amanhã e não acontece nada. Trabalhar sem segurança você não consegue trabalhar direito, então o jeito é se proteger. Joga pelo resultado?  Sim, só pelo resultado, porque se não tiver resultado, ele é mandado embora. 

Você acredita que a seleção brasileira perdeu a identidade?

O que aconteceu é que de uns anos para cá, os europeus vieram para o Brasil buscar a nossa técnica e como jogar bonito. Eles tinham a força, a educação e a leitura de jogo, mas faltava a qualidade. Eles vieram aqui,estudaram e melhoraram a qualidade deles e nós fizemos o contrário e fomos buscar a força deles. Inverteu tudo. Ficamos com a força dos europeus e eles com a nossa técnica. 

Acredita que o Brasil perdeu o respeito dos rivais?

Ninguém mais respeita. O Brasil virou um time normal, que não ganha de uma seleção europeia a muito tempo, principalmente em Copa do Mundo. Antes, os europeus tremiam e a gente botava medo, mas a verdade é que há muito tempo o Brasil não é mais o melhor do mundo. 

Como você vê o Neymar: um jogador mimado ou cobrado em excesso?

Eu vou falar do Neymar que eu conheço, com quem trabalhei no Santos e depois vi de perto no Barcelona, no período em que fui lá, conhecer. Ele é fora de série. É um cara educado e focado no trabalho. O que não dá para opinar, mas todo mundo opina, é sobre o dia a dia dele no PSG. No Carnaval, por exemplo, eu não sei se ele teve autorização para vir para cá. Se eu fosse o treinador ou dono do PSG, eu falaria para ele não vir. Como falei algumas vezes no Santos e ele aceitou numa boa. AS pessoas têm que saber que os craques não dão problema. O que dá problema são os "mais ou menos". Neymar, Rogério Ceni, Fernandão... todos os caras grandes com quem trabalhei não davam trabalho. Joguei futebol e as pessoas têm de ser cobradas pelo que faz em campo. Se fora, ele está levando uma vida que está atrapalhando, precisa ser chamado. Se ele chega cedo nos treinos, fica mais tempo que os outros jogadores treinando, cumpre todos os compromissos dele com o clube e comercial, não tem o que falar. Não acho que ele é mimado, ele é uma pessoa que gosta de se divertir, nunca foi de beber, gosta de sair com mulheres, que bom, né? Nunca foi de exagerar nada, tinha condição física excelente. 

Hoje, a gente vê muitos casos de jogadores 'peitando' treinadores e dirigentes. Falta pulso firme no futebol brasileiro?

Nessa renovação de técnicos, a gente está com dificuldade nisso. Todos os técnicos estudam, sabem de tática, técnica, do psicológico, mas tem uma coisa que se o treinador não tiver, ele vai trabalhar em time pequeno o resto da vida: comando. O Telê (Santana) foi um dos melhores porque tinha comando. Jogador é um profissional como outro qualquer, que precisa dar o melhor. No Brasil, o jogador faz coisa errada, o dirigente abraça o cara e manda o técnico embora. Nunca abri mão e jogadores nunca brigaram comigo, porque eles viam que era para o bem deles. Acaba o ano, a gente é campeão e o jogador se valoriza e ganha mais. Infelizmente, a gente não vê cobrança. Tem muito papinho, palavras bonitas, falam de conceito e tal, mas não acontece nada. Jogador é expulso quando quer, faz biquinho quando sai de campo, o que é ridículo. Chuta copinho de água... E essas coisas faz uma diferença absurda no futebol. Não se discute comando no futebol brasileiro. Isso é fundamental. Se você é presidente em um empresa e não tem comando, você está morto. 

Falta o jogador ter mais vontade de ser campeão e não só em ganhar dinheiro?

As relações vão mudando. A minha geração jogava porque a gente gostava. Ganhávamos pouco, era quase impossível ir para fora e seleção era difícil, porque tinha muitos bons jogadores.Nessa geração, os caras começam na base e não pensam em seleção ou ser profissional no clube. Eles pensam na Europa. Eu vejo a seleção um pouco fria. Estive na Copa, fiz Eliminatórias e vi que eles jogam bem e tudo, mas falta aquela coisa de gostar de estar ali, como é na várzea, coisa de amador mesmo. Você vê um time frio e isso não vai mudar, porque é um caminho sem volta. A modernização faz eles pensarem só em ganhar dinheiro. 

Isso ajuda a explicar o motivo de Vinicius Junior, David Neres, Luiz Araujo, entre outros, irem embora tão cedo?

Os clubes não são culpados. O cara oferece 100 milhões para o jogador, ele vira e fala: eu não jogo mais aqui. Quem manda hoje é o jogador, não o clube. A gente não tem dinheiro para bancar essas coisas. Os caras chegam aqui e levam o Vinicius Junior, Paulinho, David Neres... A culpa não é do clube. A lei favorece o jogador. O jogador vê que tem 10 anos para arrumar a vida e ninguém pensa no futebol brasileiro. 

Tudo isso fez você desistir do futebol?

Eu tive a questão da saúde e em razão de tudo isso. Eu tinha comando forte e isso esbarrava em muita vaidade e no futebol existe uma vaidade terrível. Se você me contrata, é do meu jeito. Você não me contrata para eu fazer do seu jeito. Mas é difícil ser assim, porque você precisa de resultado para ficar nos lugares. Eu não aceitava sair para jantar e ser amigo de dirigente. Era uma briga diária em que eu precisava ganhar. Meu lado social é horrível, eu sou anti social mesmo. E todo lugar que eu ia defendia a camisa do clube. Eu trabalha para os clubes e não para as pessoas e isso é duro, porque as pessoas querem participar e não sabem como fazer. Na segunda vez que fui para a UTI, vasculharam tudo e não acharam nada. Aí descobriram que era estresse. O estresse ia me matar, por isso parei. 

Confira os outros especiais do FUTEBOL EM DEBATE:

Cap. 1: Falcão: 'Precisamos adaptar o nosso estilo de jogo'

Cap. 2: Rivellino: 'O garoto não joga mais com alegria'

Cap. 3: Leão: ‘O Brasil precisa recuperar sua identidade’

Cap. 4: Dorival Junior: '40% dos atletas da Série A deveriam estar na Série B'

 

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Capítulo 6 - Parreira: ‘O calendário do futebol brasileiro é o nosso calcanhar de Aquiles'

Para a série FUTEBOL EM DEBATE, o técnico tetracampeão do mundo diz que há muitos jogos e muitas competições no País para poucas datas

João Prata, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 04h30

Carlos Alberto Parreira foi técnico em Copas do Mundo por cinco seleções diferentes: Arábia Saudita, Brasil, Emirados Árabes, Kuwait e África do Sul. Comandou grandes clubes do futebol brasileiro como Corinthians, São Paulo, Santos, Internacional, Fluminense e Atlético-MG. Passou pelo futebol europeu ao dirigir o Valencia, na Espanha, e o Fenerbahce, na Turquia. E levantou troféus dos mais variados tipos: foi campeão brasileiro, da Copa do Brasil, estaduais, levantou taças na Ásia, e claro, conquistou a Copa América, Copa das Confederações e o tetra mundial em 1994 pela seleção brasileira. 

Com experiência de viver o futebol profissionalmente há mais de 50 anos, Parreira conversou com o Estado para a série Futebol em Debate e analisou a crise do futebol brasileiro. Ele acha que o País precisa “se preocupar mais com o jogo, deixar a bola correr” e parar com o ‘cai-cai’, a reclamação com o juiz, a malandragem de ganhar na conversa. Para ele, o Brasil não pode perder a essência de ter a posse de bola e de buscar a jogada individual, mas tem que dar mais fluidez às partidas. 

O País do Futebol, no entanto, não precisa se desesperar. Na opinião do técnico do tetra, para quase tudo há solução. Na seleção brasileira é preciso ter só mais um pouco de paciência com o processo de renovação do Tite, porque a safra é boa e a mescla com jogadores experientes é o mais importante. O único problema que para ele não tem solução é o calendário do nosso futebol: “É o nosso calcanhar de Aquiles o calendário. É muito jogo, muita competição para poucas datas”. 

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo é publicado no canal Estadão Esporte Clube. O Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e técnicos. 

Como você vê o atual momento do futebol brasileiro?

Falar do futebol brasileiro, como vivemos em um país continental, é muito complicado. A qualidade do futebol brasileiro é concentrada sempre nos grandes centros: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Minas... Essa é a essência. E mesmo nesse centro é reservado a poucos clubes, né? O Flamengo tem uma gestão profissional muito boa, teve poder de investimento montou um grande time. Os outros sofrem porque quando aparece jogador muito bom vende rapidamente. Há instabilidade, despesas muito grandes... Em São Paulo é um pouco mais sólido porque o Estado é o grande motor da economia. Isso se reflete nas equipes que são melhor montadas. O Cruzeiro também está com bom poder de investimento. Os times, de modo geral, apostam nos jogadores jovens, que ganham experiência e vão se formando dentro da competição.

Estamos em crise?

Talvez a crise seja no lado financeiro porque as despesas são grandes e as receitas diminuídas. Estava vendo Juventus e Ajax (pela Liga dos Campeões). A velocidade do jogo, a intensidade foram impressionantes até os últimos minutos, foi assim o jogo inteiro. Que velocidade, que intensidade, que qualidade. Nosso futebol é diferente. A gente fica mais com a bola, gosta mais do drible, não tem tanta velocidade. 

Você vê semelhanças entre o futebol europeu e o brasileiro?

A formação das equipes é praticamente a mesma. O Ajax (contra a Juventus) jogou no 4-4-2, depois mudou para o 4-3-3. Os times variam muito, mas de um modo geral é essa linha de quatro e outra no meio, que pode variar para três. Essa variação encontra no nosso futebol.

O que precisa ser melhorado no futebol brasileiro?

A gente podia ter o ritmo um pouquinho mais forte, sem perder a característica principal que é a individualidade, que é o poder de improvisação. Lógico que a gente nunca vai copiar, mas poderia jogar um pouco mais com fluidez. A gente tem ficado muito pouco com a bola, a tão chamada posse de bola. As equipes não tem ficado com a bola para se impor tecnicamente.

O Corinthians é o principal exemplo disso?

O Corinthians se defende muito bem, mas ainda não fica com a bola como a gente acha que poderia ficar. O Flamengo e o Palmeiras são um pouco mais diferenciados.

Como mudar isso?

Uma coisa que vejo muito diferente quando vejo um jogo da Europa é que aqui é muito ‘cai cai’, toda hora o jogo é interrompido, reclamam do juiz. Tinha de ter mais fluidez para jogo render mais, correr mais. Se consome muito tempo do jogo em jogada de bola parada, jogador sendo atendido, jogador reclamando, cercam o juiz... essas coisas a gente não vê lá fora. Isso dava para melhorar mesmo. Se preocupar mais com o jogo, deixar a bola correr, e a nossa característica de ficar mais com a bola. Não como era a antiga posse do Barcelona com o Guardiola, que dava 800 passes em um jogo, mas ficar mais com ela. Você se impõe ficando com a bola. O Manchester City faz isso, fica com 75% da posse. O Ajax também vem fazendo isso de maneira técnica e tática, saindo para o jogo. Fluidez.

O calendário brasileiro também atrapalha?

O calendário também é muito complicado. Aqui acontecem três competições ao mesmo tempo: campeonatos regionais, Copa Sul-Americana ou Libertadores e Copa do Brasil. Não há quem resista. É muito jogo para pouca data. Não somos iguais na Europa. Já viajei muito por lá. Assisti Olimpíada, Copa do Mundo. Fui em 2012 acompanhar a Olimpíada. Fui ao País de Gales, Escócia e não precisa pegar avião. Ia de ônibus ou de trem, viagens confortabilíssimas, em duas três horas você atravessa o país. É muito fácil. Aqui fui fazer palestra em Porto Seguro a uma da tarde e tive de acordar as quatro da manhã, pegar avião às 7h, fazer transfer em São Paulo para chegar lá ao meio dia. É diferente. Aqui você joga na quarta, depois vai para o Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia, é desgastante. Isso obriga os clubes terem elencos muito grandes, gastar fortuna muito grande. 

Você vê alguma solução para o problema do calendário?

Participei de uma comissão tempos atrás com o falecido Carlos Alberto Torres, o Ricardo Rocha e muitos outros dirigentes durante três meses. É impossível mudar o calendário. É o nosso calcanhar de Aquiles o calendário. É muito jogo, muita competição para poucas datas. Até citava nas reuniões, tem três fatores que são os pilares disso aí: técnico, financeiro e político. Conciliar os três é tarefa para gênio, quem conseguir conciliar isso resolve o problema. Quando você privilegia o técnico é evidente que vai perder o político e financeiro. Quando você privilegia o político, a mesma coisa. É complicadíssimo. Os clubes grandes que participam com mais intensidade é terrível. E os menores, em determinado momento do ano, ficam sem jogar.

A seleção brasileira perdeu sua identidade?

Não acho. Desde a minha época, nos anos 70 quando trabalhei pela primeira vez na seleção brasileira, a gente tinha só um jogador no exterior e nem era convocado. A partir de 74 começou mais. Depois, fui técnico em 83, 94 e 2006. A gente percebe. Eles vão para fora, crescem profissionalmente, aprendem a jogar em equipe, aprendem a marcar, ganham outra disciplina tática, mas quando eles voltam para jogar na seleção continuam sendo brasileiros, gostam do toque, gostam de ficar com a bola. É que a dificuldade é muito grande mesmo. O treinador da seleção, hoje é o Tite, pega os caras, tem dois dias para treinar e vai para o jogo. O adversário está sempre motivado com a seleção. E tem outro problema, ter de vir para a América do Sul é complicado. Pós Copa do Mundo é outra realidade. O Tite está testando jogadores. Alguns jogadores que estão aí possivelmente por causa da idade vão ter de encontrar substitutos. E os novos, para saber se serve ou se não serve, têm de colocar para jogar.

Como você vê a nova geração do futebol brasileiro?

É sempre boa. Não dá para negar o valor de um Rodrygo, um Vinicius Junior, um Paquetá. Tem David Neres, do Ajax, o Gabriel Jesus... é uma safra boa. Agora tem que ver até onde vão maturar o suficiente. A Copa está aí em cima. O período é curto. Eles não ficam dedicados somente à seleção. Essa fórmula... não estou descobrindo a pólvora, mas todo time campeão do mundo tem sempre uma mescla de jogadores experientes com jogadores jovens. Não podemos ir só para Copa com jogadores novos. Tem de fazer a mescla e o Tite vai conseguir chegar lá. O importante agora é concentrar para a Copa América e torcer para vencer em casa. Não tem obrigação, mas tem oportunidade enorme para vencer em casa.

Você foi muito criticado em 1994 pela postura tática da seleção. Como você vê hoje essas críticas?

Em julho vai fazer 25 anos da conquista. A gente sente nas pessoas, viajo muito pelo Brasil, não estão preocupados se foi isso ou aquilo, estão felizes por ter ganhado. Outro dia fui cumprimentado por uma pessoa que disse: 'Muito obrigado, foi o meu primeiro grito de campeão com o Brasil. Houve um erro de avaliação muito grande. Seus colegas de imprensa dizem que foi defensiva. Essa palavra não existe. Defender e atacar são dois termos do futebol que quem quer ser campeão tem de dominar. Isso foi desde o início da criação do futebol, é atualmente e vai continuar sendo daqui a cem anos. Futebol se resume a duas ações: defender e atacar. Se não tem a bola defende. A seleção de 94 não foi defensiva, muito pelo contrário. Ela foi organizada. Quando é organizado se defende melhor. A gente ocupava bem os espaços. Tinha dois atacantes e duas linhas de quatro marcando por zona, característica do futebol brasileiro, e quando tinha a bola tocava, quando dava para jogar em velocidade jogava. Os laterais avançavam, eram ofensivos. Tinha equilíbrio muito grande. Mas criticaram tanto que depois que ganhou teve gente que não sabia o que falar: "ganhou mas jogou feio". Não sabiam nem como explicar. O time tomou três gols em sete jogos. Não foi nunca defensivo. Tem muita gente que ainda não entendeu a diferença entre ser organizado e ser defensivo. Por ser bem organizado se defendia bem. Estou dizendo o que sinto até hoje. 

O Tite sofre críticas semelhantes?

Nunca um treinador chegou a uma Copa do Mundo com tanto apoio da imprensa e de torcedores. E nunca um treinador foi pedido pós Copa do Mundo para que continuasse. Foi quase uma imposição de que o trabalho tinha sido bom e deveria continuar. As críticas nessa fase de renovação é evidente que não vai jogar no melhor nível agora. A camisa pesa. Não tem jeito, é muita pressão. Ainda mais depois de derrota na Copa do Mundo. O jogador precisa de tempo para maturar. Comentei com o Tite em outra ocasião que esses jogadores que estão chegando agora a gente não sabe se estará pronto para a Copa de 2022. É um tiro no escuro. Todos são ótimos e têm potencial, mas quem estará pronto a gente não sabe. Dou exemplo do time de 94. O Bebeto, Taffarel, Dunga e Jorginho foram campeões sub 20 em 84. Dez anos depois foram campeões do mundo. Olha só o processo. Jogadores de 17 e 18 anos tão tendo oportunidade mas não dá para dizer quem vai chegar lá. Vai depender de muitos fatores. O ideal é essa mescla de jovens e veteranos.

O Tite é o técnico ideal para o momento?

Tem de ter continuidade. Não pode ficar trocando em função de resultado. Aí vem um cara com ideias totalmente diferentes. Já foram dois anos, tem de continuar. A Copa acontece de jogar bem, jogar mal, ser eliminado. O Brasil perdeu nas quartas para a Bélgica, que jogou muito bem no primeiro tempo. O Brasil reagiu no segundo tempo e podia ter virado, mas fica o resultado. Isso tem peso muito grande. O bacana é que houve quase unanimidade pedindo para ele ficar. Acho que foi muito bem equacionado.

Como lidar com o Neymar?

O Neymar tem muita personalidade e tudo o que ele faz cresce em progressão geométrica. Impressionante. Quando trabalhei com ele na seleção, na primeira copa do mundo dele, ele se comportou muito bem. Fez dois ou três gols. Foi uma pena sair daquela maneira, sem dúvida alguma fez falta. Ele tem muita personalidade. O Tite e o Edu estão felizes com Neymar, não reclamam do comportamento dele. Ninguém tem dúvida que ele tem a liderança técnica. Mas para comandar o time, como era o Gerson e o Carlos Alberto, já é outro tipo de liderança. Ele é o nosso grande nome e vai ser muito importante.

Na sua opinião então ele não deveria ser o capitão do time?

Não sei. A liderança técnica é dele, mas a de comandar o time... o Tite concentrou no Neymar, mas é definição do Tite. O Pelé nunca foi capitão, mas todo mundo respeitava ele como se fosse. Ele abria boca e todo mundo dizia amém. O Neymar para liderar a seleção não precisa ser capitão. Ele é muito ouvido.

Como imagina a seleção para Copa de 2022?

Não sei. A gente tem de se concentrar na Copa América e projetar a eliminatória. o time começa a ser formado na eliminatória. A eliminatória é muito boa para isso. jogar com a Argentina fora, o Uruguai são verdadeiras batalhas. Já participei de duas e sei como é difícil. E isso ajuda para você conhecer o jogador que tem: quem corresponde e quem não. Quem tira de letra a pressão, quem sente. O time de 2022 é difícil de fazer previsão. Está tudo em aberto. O Tite está dando as oportunidades e cabe a cada um aproveitá-las.

CONFIRA OS OUTROS CAPÍTULOS DA SÉRIE FUTEBOL EM DEBATE

C1: Paulo Roberto Falcão: "Precisamos adaptar o nosso estilo de jogo"

C2: Roberto Rivellino: "O garoto não joga mais com alegria"

C3: Emerson Leão: "O Brasil precisa recuperar sua identidade"

C4: Dorival Jr: "40% dos atletas da Série A deveriam atuar na Série B"

C5: Muricy: 'Ficamos com a força dos europeus e eles com a nossa técnica'

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Capítulo 7 - Alex: 'Clubes devem se aproximar do futsal para resgatar o drible e a criatividade'

Na série FUTEBOL EM DEBATE, eterno craque diz que País valoriza a tática em relação à técnica

Entrevista com

Alex - ex-jogador e comentarista esportivo

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2019 | 09h00

 

Uma solução para promover a evolução técnica dos jogadores brasileiros, fazendo com que os dribles sejam mais frequentes, por exemplo, é aproximar os clubes de futebol das equipes de futsal, caracterizadas pela criatividade e habilidade. Essa é uma das saídas propostas pelo ex-jogador Alex, o sétimo entrevistado na série especial Futebol em Debate, promovida pelo Estado.

Neste capítulo, ex-camisa 10 talentoso e cerebral do Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe e hoje comentarista da ESPN também avalia que os clubes deveriam administrar o futebol brasileiro. "Temos de dissociar o futebol brasileiro da CBF", afirma o ex-jogador.  

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo também é publicado no canal Estadão Esporte Clube. Com a série Futebol em Debate, o Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e técnicos. Confira os outros capítulos com: Paulo Roberto Falcão, Rivellino, Emerson Leão, Muricy Ramalho, Dorival Junior e Carlos Alberto Parreira.

Você está satisfeito com o nível técnico dos jogos do Campeonato Brasileiro?

Depende do jogo. Generalizar é algo que não serve. Vamos traçar um paralelo com o futebol europeu. Os elogios que são feitos para os jogos do futebol europeu são feitos para os jogos da Champions League. Nos jogos do Campeonato Alemão, falamos de Bayern e Borussia. Na Espanha, Real e Barcelona. No final de semana, jogaram Parma e Fiorentina. A gente não assiste Parma e Fiorentina. Na Liga Italiana, a gente assiste Juventus e Napoli, por exemplo, que são times no melhor nível. Os principais nomes estão jogando no futebol europeu, na China ou até no mercado árabe. Isso diminui a qualidade técnica do nosso jogo. Dentro do que nós temos, é possível ver bons jogos.

O futebol brasileiro perdeu sua identidade?

Isso foi perdido. Isso é inegável. É preciso ver a condição social do País. Nós tínhamos ruas, praias e também o futsal. Hoje, só temos o futsal. Com o erro absurdo dos clubes de ter jogado o futsal para longe. É difícil um clube permitir que uma criança jogue futsal e futebol. Quando você larga isso, a técnica diminui. O futsal te dá técnicas maravilhosas. Na história do futebol brasileiro é impossível não relacionar os ganhos do futebol brasileiro ao futsal. Na rua, você tinha de se virar e se tornava inventivo. Hoje, perdemos coisas simples, como o “um para um”, por exemplo. Podemos citar pontas por dez minutos que driblavam os laterais. Isso foi diminuindo. A gente começou a imaginar que a parte tática fosse a mais importante. Eu ouvi falar de parte tática quando tinha 16 e 17 anos e estava chegando ao time principal. Hoje, os treinadores falam da parte tática aos 10 e 11 anos e esquecem o condicionamento técnico e a coragem para fazer algo natural, que não seja treinado, que é a questão do drible.

Uma reaproximação dos clubes de futebol profissional com o futsal pode resgatar a inventidade?

Para mim, o que teria de ser feito é o resgate do futsal, que deveria estar mais próximo do futebol. Não consigo ver os dois separados. A história do futebol brasileiro mostra isso. Um bom percentual dos nossos grandes nomes passou pelas quadras. Outra coisa que mudou muito é que o treinador tinha a função de formar e entregar jogadores. O técnico do mirim tinha de entregar bons jogadores para o infantil e assim para o juvenil e os juniores. E aconteciam algumas perdas na troca de categoria. Além disso, os treinadores da base ficavam longos anos na base. Hoje, as diretorias entendem que os times têm de ser campeões. Quando um diretor encerra seu mandato, ele fala que a passagem foi boa porque ganhou 40 e tantos títulos. Nessa conta estão dois sub-11, três sub-15... Para mim, o sub-11 deve chegar melhor ao sub-13 e assim sucessivamente.

Pode dar um exemplo?

Vários pais me procuram para indicar jogadores. Uma coisa que me assustou é que algumas dispensas são feita da seguinte maneira. O avaliador diz que o menino é bom, mas que ele é igual a outro que já treina naquela escola há três anos. Se ele diz isso, ele tem de mandar embora o menino que já está treinando há tanto tempo com uma evolução mínima. Isso me chamou a atenção. Além disso, os treinadores da base ficam um ano. É um profissionalismo conduzido de forma errada. Tenho três atletas dentro de casa: uma joga tênis, a do meio joga vôlei e o menino joga futsal. Quando eles sofrem uma derrota, a conversa é simples. Eu falo sobre a evolução. No ano passado, você foi às oitavas de final; neste ano, você foi à final. Neste ano, você já consegue usar seu pé contrário e assim por diante. O treinador do sub-11 não é ruim porque perdeu o título, mas sim porque não entregou a geração que ele treinou com alguma evolução.

E as escolinhas de futebol?

As escolinhas substituíram os campinhos de terra. Existem boas escolinhas e outras com proprietários que só pensam em ganhar dinheiro. Na escolinha, é possível descobrir se os filhos têm aptidão ou não. Outra coisa é o pai que sonha com o filho jogador e quer que ele jogue de qualquer forma. Não podemos confundir o esporte competitivo com o esporte como atividade física. Na rua, a seleção era natural. Tinha aquele que se destacava e outro que só completava o time. A escolinha vai fazer a seleção. A escolinha tem de indicar aquele que tem potencial e tem de ter coragem de falar que aquele menino não pode jogar futebol.

O futsal faz essa distinção, formando salonistas e futebolistas. Ele dá as coisas que usamos no futebol: drible, passe, controle, tomada de decisão, poder de marcação, fechamento de espaço. Hoje, alguns jogadores de futebol não conseguem fazer uma diagonal. É culpa dele? Provavelmente não. Na idade de formação, ninguém deve ter passado isso para ele. Estão preocupados em ganhar não em passar conceitos. É uma diferença grande. É bom passar conceitos, dando liberdade para jogar bola.

Qual é a influência da venda de jogadores nesse processo?

Os europeus tinham na tática seu poder principal. Nós também tínhamos tática, nosso time não era uma bagunça. A tática vinha depois da parte técnica. Quem vai jogar? Quem for tecnicamente melhor. Quando começamos a achar que deveriam jogar aqueles que fossem melhor taticamente, aí nós começamos a perder. Hoje, algum treinador usaria minhas características como jogador ou tentaria me encaixar? Essa é uma pergunta interessante.

Ao longo dos anos, acho que fizemos uma troca. Hoje, os europeus têm a técnica e mantiveram a organização. Fizemos o contrário. Passamos a ter uma preocupação exagerada com a parte tática e esquecemos de dar liberdade para quem tinha técnica. O principal problema não é o futebol profissional, mas as categorias menores. No sub-14, o menino com qualidade técnica é preterido. O treinador sabe que não precisa formar jogadores, ele está ali para ganhar títulos. Ele tem de colocar o que é melhor naquele momento e não aquele que vai evoluir.

O Neymar tem sido o grande craque brasileiros nos últimos anos, mas sempre se envolve em polêmicas. Ele vai mudar?

É preciso separar as duas coisas. Dentro de campo, ele é um gênio. Ele está na primeira prateleira dos jogaores que eu vi. Ele senta na mesa com o Zico, que é o maior que eu vi. Pessoalmente, eu achava que ele fosse evoluir em algumas situações. O Barcelona normalmente educa. No período do Barcelona, ele teve um comportamento dentro daquilo que o Barcelona exigia.

No Paris, ele tem o mesmo comportamento que ele teve no Santos, que é se colocar acima de qualquer situação. O Santos permitiu, agiu de maneira paternalista; o PSG permite. A maioria esperava que o comportamento dele fosse diferente. Para mim, um cara que o admira e torce por ele, eu acho que teremos pouquíssimas mudanças. Não acho que ele vai virar outro tipo de pessoa daqui para a frente. Lidar com as frustrações que a carreira mostra, ele tem uma dificuldade maior do que teria outra pessoa. Ser ele não é simples. É muito difícil. Mas ser ele (Neymar) pede esse controle. Ele tem alguns gestos que algumas pessoas condenam.

Paralelamente aos problemas dentro de campo, como está a gestão do futebol brasileiro?

Eu não gosto. Nós tínhamos de dissociar o futebol brasileiro da CBF. Esse é o primeiro ponto. A CBF faz muito bem o trabalho dela com a seleção brasileira. Isso é inegável. A gente vê os ganhos financeiros. Os resultados de campo podem até não ser bons, mas ninguém pode falar nada sobre os resultados financeiros e de organização. Eu joguei dez anos na seleção e não me faltava nada. A gente pode discutir se ela se distancia ou se aproxima do ponto por causa desses jogos fora do Brasil, mas acho que isso tem de ficar à parte do futebol brasileiro. Acredito que o futebol brasileiro tem de ser organizado pelos próprios clubes.

Pelos clubes?

Sim. Eles deveriam imaginar quem vai transmitir, que tipo de contrato será feito com as televisões, com mídias e patrocinadores. Mas a gente ainda não tem esse pensamento coletivo. A gente fica na ideia que Flamengo e Corinthians têm mais torcedores e devem ter maior rendimento. No Campeonato Brasileiro, no entanto, eles vão enfrentar clubes como a Chapecoense, que tem um número de torcedores bem menor. Ou Athletico Paranaense, que está vivendo um crescimento natural como clube, mas não sabemos o quanto mais ele poderá crescer. Enquanto a gente imaginar esse distanciamento e o clubes discutindo a questão de maneira individual, a CBF fica ali, juntamente com a Globo, detentora dos direitos. Os clubes jogam quando eles quiserem e ficam como reféns. Acredito que o calendário ainda é o grande “calo” do nosso futebol.

Por quê?

É impossível jogar tanto em períodos curtos sem dar a condição de o treinador recuperar os jogadores, fazer com que o time evolua e o jogador tenha tenha para evoluir. Ainda tem a questão cultural, com partipação da imprensa e das redes sociais. O questionamento em cima de treinadores, jogadores e diretores executivos é feita meramente em cima de resultados não de trabalho. Para mim, o maior mistério do futebol brasileiro se chama Roger Machado.

Como assim?

É impossível dizer se ele é bom ou ruim, pois ele nunca terminou um trabalho. O percentual dele indica que ele é um bom treinador. No Grêmio, Atlético e Palmeiras, ele tem percentual acima de 60%. Mas ele não termina o trabalho. Por alguma razão, alguém acima dele resolve que ele tem de ser mandado embora. Depois, o Grêmio ganha o campeonato; o Palmeiras ganha o campeonato. Com isso, parece que o trabalho dele não aconteceu. Parece que o treinador que veio a seguir é muito melhor, o que para mim não é verdadeiro. Quem faz isso é a imprensa, que passa uma ideia para o torcedor, que “compra” essa ideia. Temos outro exemplo. O Alberto Valentim foi mandado embora porque perdeu a decisão do Campeonato Carioca. Se ele ganhasse o torneio, o trabalho dele seria bom? Esse tipo de análise rasa faz com que as trocas vão existindo e os trabalhos sejam interrompidos. Culturalmente, a gente gosta dessa rotatividade. Os clubes e os treinadores ficam tão vulneráveis que a única ideia é ganhar e ganhar a qualquer custo. Muitas vezes isso não é o correto.

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Capítulo 8 - César Sampaio: 'Acredito que a melhora do futebol passa pela educação'

Na série FUTEBOL EM DEBATE, o ex-volante destaca a necessidade dos atletas se dedicarem ao estudo

Entrevista com

César Sampaio, ex-jogador

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2019 | 04h30

César Sampaio fez história no futebol dentro de campo e está tentando fazer fora dele também. O volante que passou por equipes como Santos, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, atuou na Europa, no Japão e na seleção brasileira, garante que não se pode desvincular o futebol da educação. O ex-jogador que atua como comentarista e está se especializando cada vez mais na gestão de clubes lembra que o futuro dos jovens que sonham um dia se profissionalizar passa pela escola. E é sobre esse assunto que ele aborda no oitavo capítulo da série especial Futebol em Debate, promovida pelo Estado.

O que falta para o Brasil voltar a ter aquele futebol que encantava o mundo?

Economicamente falando, cada vez mais esses países periféricos sofrerão com a perda de seus melhores jogadores precocemente. A maioria dos clubes brasileiros é deficitária e uma das fontes de receita é a comercialização de atletas. Em alguns clubes, é a maior fonte, inclusive. Tem clubes brasileiros que já têm meta de venda desde o início do ano para fechar a conta dos gastos que terá. Outro ponto é que o departamento comercial dos clubes está muito afetado pelos agentes. Os clubes formam os atletas, mas na hora de vender boa parte dessa negociação é direcionado por um agente forte local. O clube muitas vezes não têm 100% de domínio das negociações. E o próprio atleta, que às vezes tem muitas pessoas dependentes do seu trabalho, acaba decidindo sair por causa da remuneração.

O Campeonato Brasileiro sofre com essa falta de talentos?

Tem um amigo que diz que a gente vive o pré e pós carreira dos jogadores. Usando como exemplo real o Rodrygo, do Santos, que estava esperando completar 18 anos para sair (ele já foi negociado com o Real Madrid). E o pós, quando vemos Ricardo Oliveira brilhando, mas o período esportivo mais competitivo, em termos físico, de inteligência de jogo, os atletas não vivem aqui. O Campeonato Brasileiro é totalmente afetado por isso. A gente perde em qualidade.

Antigamente o jogador surgia no time pequeno do interior, ia para o grande do interior, depois para o da capital e só depois ia para fora. Atualmente essa trajetória tem menos escalas. É isso mesmo?

Eu penso que o mundo ficou menor com o avanço tecnológico e com esses departamentos de análise de desempenho e análise de mercado. Mas não é um fator só do Brasil. Ocorre na Costa do Marfim, na Zâmbia... Se você tiver um bom jogador em qualquer lugar que não seja economicamente auto-sustentável, você perde o atleta porque os caras acham. Tem um filtro que alguns analistas usam que é o quilômetro percorrido, a intensidade e os números do atleta para colocar em um ranking. Um exemplo: você é goleiro, faz tantas defesas por jogos, tem boa reposição com os pés, tem uma técnica de encaixe perto da de um goleiro da Premier League, algum cara de lá vai te ver. Vai passar uns dias no seu país, ver treinos, conversar com pessoas próximas de você... É assim que antecipam a compra, pois é mais barato, e terminam a formação do atleta no clube de fora.

Do ponto de vista financeiro, muda muito a vida do jogador ir atuar no exterior?

Ter acesso a outra cultura sempre é legal, desde que se esteja de mente aberta. Se for para os grandes centros, a qualidade de vida é maravilhosa. Tem segurança, ótima educação para os seus filhos, boa gestão da competição, do gramado que você treina e joga, a infraestrutura do clube é excelente, torcida não invade o CT, ou seja, tem um monte de coisa, não é só o valor financeiro. Vivi na Espanha, machuquei os dois tendões, acabei jogando pouco, mas para minha família foi maravilhoso pela ótima qualidade de vida.

No momento, qual a percepção dos estrangeiros sobre o futebol brasileiro?

A percepção é a mesma que a nossa, pois a informação acaba chegando lá. O antigo presidente da CBF não pode sair do País, o outro esteve preso, tem desorganização, corrupção, calendário maluco, joga cinco competições simultâneas com elenco ruim, os clubes não pagam. Tudo isso circula fora do País. Eu não pretendo morar fora do Brasil. Não tenho nada contra quem saiu, mas quero melhorar aqui. Acho que sou um pouco utópico, mas entendo que o futebol, e o esporte em geral, pode ser uma ferramenta de mudança para melhor.

Você acredita que essa mudança no futebol pode começar por uma melhoria nas categorias de base?

Acredito muito na educação, na escola. Felizmente a legislação já mudou e hoje já temos alguns grandes centros de clubes interditados por falta de estrutura adequada. Do outro lado, trabalhamos com sonhos de crianças que muitas vezes querem mudar a realidade da família e se sujeitam a qualquer coisa, a qualquer custo. Me lembro que no ano passado teve a história de um jogador alemão da base que foi relacionado para um jogo no profissional, mas ele tinha prova na escola e não deixaram ele ir jogar. Isso mostra a importância na Liga Alemã da escola e formação do caráter e do cidadão. Isso a gente transporta para o jogo com o fair play financeiro e esportivo. É um outro mundo, que eu acho que é o certo. Por isso acho que temos de apresentar soluções.

E quais seriam essas soluções?

Eu tenho estudado bastante nesses últimos anos para que a gente possa tirar do Power Point essas ideias que temos e transformar em algo concreto. Hoje sou presidente de um clube de formação na cidade de Tietê e a gente vem procurando montar esse case, que vai demorar um pouco porque não temos verba. Eu vim de projeto social. Fiz teste em grandes clubes e não passei, mas continuei jogando em um centro educacional no Jabaquara, onde aprendi muitas coisas na minha infância. Minha mãe era diarista e costureira, meu pai era carteiro, então ia para a escola de manhã, voltava e ficava na rua. Esse centro educacional ajudou muito na minha formação. Então sempre tive vontade de devolver isso para a sociedade. Tenho também duas escolinhas de futebol, e nesse projeto social em Tietê usamos o esporte como ferramenta de inclusão. A maioria dos garotos não vai virar atleta profissional, mas a gente tenta ajudar eles com essa ilusão e aproveita para introduzir valores e princípios.

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