Wallace Woon/EFE
Wallace Woon/EFE

Após altos e baixos, seleção brasileira terá de mostrar força nas Eliminatórias

Equipe de Tite encerrou sequência de cinco jogos sem ganhar com triunfo sobre a Coreia do Sul

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 14h49

A seleção brasileira começou o ano pressionada para conquistar a Copa América, ergueu a taça, mas não conseguiu tranquilidade que queria. As decepções nos amistosos ao longo do segundo semestre, minimizadas pelos 3 a 0 sobre a Coreia, nesta terça-feira, em Abu Dabi, jogam para o ano que vem o momento de afirmação da equipe. O grante teste virá das Eliminatórias para a Copa a partir do mês de março. A regra vale também para o treinador. Por causa dos altos e baixos ao longo do ano, Tite não conseguiu resgatar a confiança e o prestígio que tinha antes da Copa da Rússia. "Eu tinha a expectativa de resultados melhores", reconheceu Tite. 

O ano da seleção brasileira teve como grande destaque a conquista da Copa América, encerrando um jejum de 12 anos. Depois do torneio continental, o time somou cinco jogos sem vencer, sequência que só foi interrompida pelos 3 a 0 sobre a fraca Coreia do Sul, nesta terça-feira, em Abu Dabi. No segundo semestre, a seleção sofreu com a falta de criatividade e inspiração em várias partidas. As lesões (novamente) tiraram Neymar dos momentos decisivos.

O início de 2019

Depois da eliminação na Copa do Mundo, quando a equipe caiu nas quartas de final diante da Bélgica, o próprio Tite admitiu o peso de a seleção ter bom desempenho na Copa América, o principal torneio do ano. “Há a necessidade de vencer a Copa América”, comentou. O jejum na Copa América era extenso: o Brasil não vencia o torneio continental há 12 anos e, desde aquela final de 2007, nunca mais conseguiu ir além das quartas.

Primeira convocação

Dois nomes importantes da primeira convocação de Tite acabaram cortados por lesão. O primeiro foi o atacante Vinicius Junior, que vivia grande momento no Real Madrid. Ele teve de rever a escolha depois que o atacante sofreu grave lesão no tornozelo direito. O substituto foi David Neres. O mesmo aconteceu com Daniel Alves, que ficou fora da Copa do Mundo por lesão. Gradativamente, o treinador começou a encher sua lista como novos nomes, como Lucas Paquetá, de 21 anos, assim como o atacante Richarlison e o volante Arthur. 

As lesões (e o carnaval) de Neymar

A grande ausência da primeira lista de Tite em 2019 foi Neymar. O atacante do PSG sofreu uma lesão no pé direito em janeiro, em partida pela Copa da França. A contusão foi no quinto metatarso, mesmo local da cirurgia à qual ele foi submetido em 2018, às vésperas da Copa do Mundo da Rússia. O jogador adotou um método conservador de recuperação. O atacante causou polêmica ao participar do carnaval brasileiro, mesmo com a recomendação de repouso, nos 12 dias em que esteve no Brasil para tratamento. O comportamento do atacante durante as festividades foi bastante explorado pela imprensa nacional e europeia e rendeu algumas críticas. Ele voltou a treinar no dia 3 de abril, pouco mais de dois meses depois da lesão. 

Irregularidade nos primeiros amistosos

A seleção começou muito mal a temporada. No primeiro amistoso do ano, não conseguiu ir além do empate por 1 a 1 com o Panamá, em amistoso na cidade do Porto, em Portugal. Com seis mudanças, o time enfrentou o único da Europa nesta lista de jogos preparatórios desde o final da Copa do Mundo. No dia 26 de março, em Praga, a equipe ganhou de virada da República Checa por 3 a 1, num jogo em que teve um péssimo primeiro tempo, mas que fez uma boa exibição da etapa final. Em um resumo das duas partidas, a equipe só jogou no segundo tempo do amistoso com os checos.

Convocação para a Copa América

Poucas novidades na lista de Tite. O atacante David Neres, do Ajax, foi confirmado para a competição, assim como o volante Fernandinho, do Manchester City, de volta após ser muito criticado após a derrota para a Bélgica na Copa de 2018, e o lateral-direito Daniel Alves, do PSG. Vinicius Junior, do Real Madrid, e Lucas Moura, do Tottenham, ficaram de fora. Dos 23 jogadores chamados para a disputa do torneio, 14 (60% do total) estiveram sob o comando do técnico Tite na Copa do Mundo do ano passado, na Rússia. Tite adiou a renovação.

Acusação de estupro contra Neymar

A preparação da seleção foi abalada por denúncia grave contra Neymar. A modelo Najila Trindade acusou o atacante de estupro em um hotel em Paris. O atleta negou. A Polícia Civil de Teresópolis chegou a fazer uma diligência na Granja Comary; Neymar foi intimado para depor na Delegacia de Crimes Virtuais, e a CBF decidiu manter o jogador com o grupo. A pressão era grande para que fosse cortado. Depois de meses de investigação, Neymar não foi indiciado por estupro e agressão. 

Lesão e o corte de Neymar

A vitória tranquila da seleção sobre o Catar, por 2 a 0, em Brasília, foi ofuscada pela contusão de Neymar. O camisa 10 deixou o campo com 20 minutos de partida após levar uma pancada e torcer o tornozelo direito. Na madrugada após o jogo, a CBF confirmou a desconvocação do jogador. Antes de a bola rolar, Neymar avisou que a partida seria uma das mais difíceis da carreira, pois enfrentava a acusação de estupro. O corte encerrou a mais turbulenta passagem do jogador pela seleção. Além da acusação de estupro, Neymar foi criticado por agredir um torcedor em 27 de abril, na sequência da derrota nos pênaltis para o Rennes na decisão da Copa da França. Willian é convocado para o lugar de Neymar.

Goleada sobre Honduras no último amistoso

Faltando uma semana para a estreia na Copa América, a seleção brasileira teve de aprender a se comportar em campo sem a presença de Neymar. O time não teve dificuldades e conquistou a maior goleada na era Tite. Diante de Honduras, rival frágil e que teve um jogador expulso no primeiro tempo, o time marcou forte, jogou coletivamente e mostrou variação de jogadas ofensivas para construir a goleada de 7 a 0 com grande facilidade. Era a hora da Copa América.

Vaias na estreia na Copa América

Sem Neymar, Tite apostou em um novo trio de atacantes: David Neres, Firmino e Richarlison; Phillipe Coutinho se tornou a principal referência. Depois de um primeiro tempo fraco tecnicamente, a seleção se recuperou e venceu a Bolívia por 3 a 0 com facilidade. Coutinho fez o que se esperava dele: foi o líder técnico do time, armou as principais jogadas ofensivas e ainda fez dois gols. O Morumbi não perdoou a atuação irregular e vaiou a seleção.

Empate com a Venezuela e goleada no Peru

O grupo de Tite deu sorte ao cair na chave com Bolívia, Venezuela e Peru, um grupo teoricamente fácil. Na prática, o time teve muitas dificuldades na segunda partida e não conseguiu superar a retranca venezuela em Salvador. O resultado final foi 0 a 0, com dois gols anulados pelo VAR. A grande atuação da seleção veio na Arena Corinthians. Diante de um Peru que se propôs a atacar, a seleção teve grande atuação individual de Everton e conseguiu um placar dilatado. Pela primeira vez, o time se impôs como anfitrião e teve grande atuação. A vitória de 5 a 0 foi do tamanho do futebol apresentado.

Vingança sobre os paraguaios

Após ser eliminado duas vezes pelo Paraguai nas quartas de final, nas edições de 2011 e 2015 da Copa América, o Brasil conseguiu sua revanche de maneira dramática. Na Arena do Grêmio, a equipe empatou sem gols no tempo normal após sofrer com a retranca adversária e precisou dos pênaltis para ganhar por 4 a 3. O time não jogou bem, sofreu retranca, mas conseguiu avançar. O time chegou à semifinal sem levar gols pela primeira vez na história.

Vitória sobre a Argentina de Messi

No jogo mais aguardado da Copa América, o Brasil superou a Argentina no Mineirão, palco do fatídico 7 a 1 para os alemães na Copa de 2014. A seleção brasileira foi eficiente, contou com a sorte quando precisou, e bateu a equipe de Lionel Messi por 2 a 0 nesta terça-feira para garantir vaga na final da Copa América. Pela segunda vez em menos de três anos os argentinos vieram para Belo Horizonte e vão embora com derrota. O Brasil não foi brilhante. O time de Tite levou duas bolas na trave (uma em cada tempo), deu espaço excessivo para Messi e foi dominado durante boa parte do jogo. No entanto, teve a favor o brilho de jogadas individuais e o equilíbrio defensivo para sacramentar a volta à final da Copa América depois de 12 anos.

Depois de 12 anos, o fim do jejum

Para colocar a mão na taça continental depois de 12 anos a equipe do técnico Tite sofreu contra o Peru para vencer por 3 a 1, no Maracanã. A galeria de jogadores campeões com a seleção brasileira aumentou com a presença de nomes jovens, badalados no futebol europeu, com sucesso nas categorias de base do Brasil, mas com menos de 28 anos. É o caso dos titulares Alisson, Gabriel Jesus, Arthur, Casemiro e Philippe Coutinho. Tite se tornou o primeiro treinador a conquistar todos os títulos possíveis no continente. Daniel Alves se reinventou, jogou até como armador e foi o destaque da Copa América. Recordista, ele somou seu 40º título. O título comprovou menor dependência de Neymar.

Caras novas após a Copa América

Nos amistosos, a esperada renovação foi tímida. Em setembro, parar enfrentar Colômbia e Peru, ele apostou em caras novas como o zagueiro Samir, o lateral Jorge, os atacantes Bruno Henrique e Vinicius Junior e o goleiro Ivan. Cortado às vésperas da Copa América após sofrer lesão de tornozelo, alvo de acusação de estupro no mesmo período e atualmente em litígio com o seu clube, o Paris Saint-Germain, Neymar voltou a ser convocado para a seleção.

Volta de Neymar

Os primeiros amistosos após a conquista da Copa América marcam o início do declínio técnico da seleção em 2019. No retorno à seleção após três meses, Neymar fez um dos gols da seleção no empate diante da Colômbia por 2 a 2, nos Estados Unidos. Neymar não participou da competição por causa da lesão no tornozelo direito sofrida contra o Catar. Desde então, o atacante se recuperou, mas não atuou pelo PSG. Ele queria se transferir para o Barcelona, mas os clubes não chegaram a um acordo.

Fim da invencibilidade

No reencontro após a final da Copa América, o Peru venceu por 1 a 0 nos Estados Unidos. A derrota foi histórica para o Brasil, pois a seleção não era superada pelos peruanos em uma partida desde a Copa América Centenário de 2016, no revés que provocou a eliminação dos brasileiros e a demissão do técnico Dunga, substituído por Tite. Essa foi também a terceira derrota de Tite desde quando ele assumiu a seleção, em junho de 2016. Os dois resultados mostraram como as Eliminatórias Sul-Americanas serão equilibradas. O desempenho da equipe nos dois jogos fez surgir críticas nas redes sociais ao futebol irregular da seleção.

Mais críticas

Os amistosos de outubro, diante de Nigéria e Senegal, fizeram subir o tom das críticas. Diante de Senegal, a seleção decepcionou e ficou no empate por 1 a 1. O time foi a base da Copa América, com o reforço de Neymar, que pouco fez na partida. Tite reconheceu e disse que a seleção “jogou menos do que poderia”. Contra a Nigéria, a história se repetiu. O time jogou mal, com pouca inspiração, e criou poucas chances de gol. O time completou quatro partidas sem vitória após a Copa América.

Últimos desafios

Os jogos contra Argentina e Coreia do Sul eram a esperança de Tite resgatar o bom futebol e encerrar o jejum de vitórias após a Copa América. A pressão por resultados aumentou depois da derrota para a Argentina por 1 a 0. A equipe não conseguiu se reinventar, como pediu o treinador. Pelo contrário. A equipe voltou a jogar mal. O amistoso marcou o retorno de Messi à Argentina depois de três meses – ele marcou o gol da vitória. Gabriel Jesus desperdiçou um pênalti.

Fim da sequência negativa

A vitória por 3 a 0 sobre a Coreia do Sul, adversário limitado, encerrou o jejum de cinco jogos sem vitória da seleção. Tite confirmou cinco mudanças. Alex Sandro, Thiago Silva, Casemiro, Willian e Roberto Firmino ficaram fora do time titular no último amistoso da temporada. A vitória era tida como fundamental para apagar a má impressão do segundo semestre. A fragilidade do rival, no entanto, coloca em dúvida a evolução da equipe.

 

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