EFE/EPA/SERGEY DOLZHENKO
EFE/EPA/SERGEY DOLZHENKO

A seleção volta a enfrentar seus fantasmas diante do torcedor brasileiro

O Brasil precisa da Copa América 2019 para se reerguer após fracasso na Rússia, firulas de Neymar e jejum de conquistas importantes desde 2007, quando ficou com o título da competição sul-americana pela última vez

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2019 | 16h43

Caro leitor,

O passado recente da seleção condena seu futebol e todos os seus personagens, de jogadores ao comando técnico, com diferentes treinadores, em diferentes momentos, passando pela gestão da CBF. Desde 2007, quando o Brasil ganhou sua última Copa América, o time principal não festejou mais nada de destaque, a não ser duas Copa das Confederações (2009 e 2013). O ouro nos Jogos do Rio, em 2016, sob o comando de Neymar, foi comemorado com um time olímpico, portanto, de nível abaixo do principal. Então, a Copa América deste ano, que começa dia 14 de junho e vai até 7 de julho, disputada no Brasil e com a final marcada para o Maracanã, abre caminho para a seleção pagar alguns de seus débitos com o torcedor.

O primeiro delas talvez seja a derrota para a Bélgica na fase de quartas de final da Copa do Mundo da Rússia, como todos nós acompanhamos pela TV ou in loco. O Estadão relatou o minuto a minuto daquele jogo, com comentários dos nossos repórteres que estavam em Kazan, uma das cidades que conheci um ano antes da competição de 2018, viagem que rendeu um especial bacana do país-sede, que você pode rever aqui.  

Após aquela derrota por 2 a 1 para o belgas, o técnico Tite foi taxativo ao afirmar que a Copa América de 2019 era a próxima grande meta da seleção brasileira. Tite disse isso ao repórter Marcio Dolzan, da sucursal do Rio. A competição chegou. Então, o Brasil tem a obrigação de ganhá-la. Para justificar a volta da Rússia mais cedo, o treinador nacional também afirmou que a seleção fez sua melhor apresentação na Copa naquele 6 de julho em Kazan. Não foi suficiente.

O fato é que depois da Copa do Mundo, Tite passou a andar no fio da navalha diante dos torcedores brasileiros. Nem mesmo a renovação de seu contrato até a edição do Catar, em 2022, deu a ele a mesma condição de "inquestionável" até chegar em Sochi, onde o Brasil montou sua base. No meu blog, entendi que a permanência de Tite foi um passo certo da CBF, que desta vez preferiu dar continuidade ao trabalho do treinador em detrimento de outra escolha para o cargo, como sempre acontecia após um tropeço. Veja o que escrevi na época. Da mesma forma, o colunista do Estadão Mauro Cezar Pereira chama a atenção para o fato da imagem de Tite ser diretamente associada aos cartolas da CBF, os  atuais e os que estão preso. O colunista escreve que o torcedor precisa reconhecer e dar a Tite o que é de Tite, ou seja, ele responde a dirigentes que estiveram envolvidos em falcatruas por anos no futebol.

Nada disso mudou. Pior. A seleção e seu comandante, além do principal jogador, Neymar, estão devendo ao torcedor. Quando Tite assumiu o lugar de Dunga, que entrou na vaga de Felipão após 2014, o Brasil teve uma reação imediata nas Eliminatórias Sul-Americanas. Largou de um sexto lugar para chegar à primeira posição, assegurada até o fim do torneio. Os brasileiros queriam o treinador para presidente, tamanha euforia. Fiz um perfil de Tite para o caderno Aliás, do Estadão, em que o chamava de Pacificador. Sim, com sua presença, jeito e conversa, ele ganhou o grupo que não aguentava mais o comando "militar" de Dunga. A seleção respirou e começou a jogar melhor, a ganhar partidas e a subir na classificação. Com o tempo, recuperou a confiança e o entusiasmo do torcedor. Mas somente até aquela partida contra a Bélgica.

 A Copa América no Brasil então se apresenta à seleção como chance de recuperar parte do prestígio perdido, mas também de descer ao inferno mais uma vez no espaço entre dois Mundiais da Fifa. Após a Rússia, Tite tem se dado bem nos amistosos. Em sua primeira chamada, para confrontos com Estados Unidos e El Salvador, ele listou 13 jogadores que estiveram na competição vencida pela França. As principais novidades, conforme reportagem do Estadão, ficaram por conta da inclusão de Paquetá, Pedro e Arthur, que hoje defende o Barcelona, mas que era do Grêmio. O estafe de Neymar, depois de tudo o que aconteceu com ele na Copa, suas cambalhotas e memes engraçados, mas negativos, tratou de desenhar um plano de emergência para recuperar sua imagem, conforme contou Raphael Ramos. Deu certo. Neymar voltou a brilhar no PSG e continua no comando do Brasil.

Mas uma coisa Tite manteve após o Mundial 2018: sua disposição de não misturar futebol com política. Ele não pretende visitar o presidente Jair Bolsonaro nem antes nem depois da Copa América. Admitiu isso com todas as letras, como informou o Estadão em 4 de dezembro. Tite já havia dito isso antes do Mundial da Rússia, referindo-se a Michel Temer e Brasília. Em entrevista aos repórteres Almir Leite e Marcio Dolzan, o treinador, naquela época ovacionado pelos torcedores, garantiu que não levaria a seleção à capital Federal em caso de derrota ou vitória na Rússia. Nesse ponto, Tite não mudou.

 

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